"Ema, então, considerando a delicada posição do pobre Mr. Elton, que se encontrava, simultaneamente, na presença da mulher com quem acabava de casar, da mulher com quem pretendera casar e da mulher com quem haviam pretendido casá-lo, compreendou, no seu foro íntimo, que devia ter-lhe concedido o direito de se mostrar tão desastrado e comprometido como realmente era de esperar."
Jan Austen, em "Ema"
domingo, setembro 24, 2006
O resto do jantar
"Serviu-se a sobremesa, entraram as crianças, que foram admiradas e animadas no meio do habitual estilo de conversação, disseram-se algumas coisas com acerto, disseram-se outras sem acerto algum, mas em proporção muito aproximada umas das outras - nada mais do que observações da vida corrente, lugares-comuns, notícias já velhas e gracejos pesados."
Jane Austen, em "Ema"
Jane Austen, em "Ema"
"Redução de custos" no Público
Para minha infelicidade e da humanidade em geral, o Público está empenhado em "reduzir os custos fixos em 15 por cento", no âmbito de uma “política de renovação e reestruturação” em curso no jornal. O plano de redução de custos passa, naturalmente, por “uma redução negociada do quadro de pessoal, a qual já permitiu rescindir contratos com cinco por cento do total de trabalhadores existentes no final de 2005”.
A empresa do Público justifica esta decisão com os fracos resultados negativos que "têm vindo a afectar a imprensa diária” (perda de circulação e quebra nas receitas publicitárias).
Segundo o JN, estima-se que esta medida vai afectar "cerca de 30 pessoas. Pelo menos no Porto a proposta foi feita a oito jornalistas. A delegação de Coimbra ficará reduzida a uma redactora. O corpo editorial é constituído, neste momento, por 140 profissionais."
A empresa do Público justifica esta decisão com os fracos resultados negativos que "têm vindo a afectar a imprensa diária” (perda de circulação e quebra nas receitas publicitárias).
Segundo o JN, estima-se que esta medida vai afectar "cerca de 30 pessoas. Pelo menos no Porto a proposta foi feita a oito jornalistas. A delegação de Coimbra ficará reduzida a uma redactora. O corpo editorial é constituído, neste momento, por 140 profissionais."
sábado, setembro 23, 2006
Edição Crítica de Fernando Pessoa

A propósito de Fernando Pessoa, a Imprensa Nacional-Casa da Moeda editou o sétimo volume da Edição Crítica de Fernando Pessoa, com o título editorial: Escritos sobre Génio e Loucura.
Quase todo o material era inédito, daí a sua importância. As investigações foram feitas pelo colombiano Jeronimo Pizarro, entrevistado pelo Expresso na edição desta semana.
"A importância do tema da loucura em Fernando Pessoa foi reconhecida por diversos estudiosos da obra do poeta e motivou alguns breves ensaios. Numa relação directa com o tema, surge quase sempre como necessária a questão da heteronímia." Pessoa terá partido do princípio de que "o génio está do lado da anormalidade - da anormalidade social, na medida em que é um inadaptado, e da anormalidade psíquica, na medida em que tem origem no ciclo bipolar da exaltação e da depressão." (Expresso)
Reabertura do Teatro Circo de Braga

É com grande felicidade que informo os que ainda não sabem que o Teatro Circo de Braga vai reabrir em breve, após muitos anos de obras.
Assim, no dia 27 de Outubro, os convidados da autarquia e, provavelmente, o primeiro-ministro e a ministra da Cultura, poderão ouvir a Orquestra Sinfónica Nacional Checa, num teatro a sério com 15 pisos! Os pormenores do edifício e dos montantes envolventes podem ser consultados no Google Notícias de Portugal.
"Tirando o concerto de abertura, não vai haver borlas para ninguém. Até eu, se quiser assistir a um espectáculo, terei que pagar bilhete", disse Mesquita Machado, presidente da Câmara de Braga, ao JN, acrescentando que esta será "a segunda maior obra de Braga. Se calhar, de toda a sua história, incluindo a época romana".
O Teatro Circo vai ter uma agenda cultural própria e uma programação dedicada a determinados países. O Brasil é o primeiro contemplado. A agenda completa até ao final do ano em Programação do Teatro Circo.
Carta de Despedida
Há mais de um mês que adio estas palavras e há algumas semanas que hesito em escrevê-las apesar de saber que são inevitáveis. Não é por fugir da realidade mas por achar que talvez não fossem necessárias. Hoje tornou-se impossível fechá-las em mim.
Só guardo boas recordações tuas. Uma amizade talvez para toda a vida. Momentos fantásticos, onde partilhamos emoções, ideias, conhecimentos, sentimentos, dúvidas… Caminhei perto de ti tanto tempo que me custa imaginar-te longe dos meus passos. Falo e falarei de ti como amigo. Porque isso sempre foi o mais importante para além de qualquer ilusão, de qualquer desejo de intensificar algum sentimento mais especial. Tenho a tua amizade, que guardarei comigo como um bem precioso, esteja onde estiver.
Como não tenho nada de novo para te dizer além de que esta é a última vez que te escrevo, que o meu sentimento se esgotou, sem que alguma coisa o aniquilasse, apareceu de repente e quase da mesma forma desapareceu, sem saber muito bem como, tão naturalmente como o envelhecimento dos seres vivos.
Em tua homenagem revejo o que escrevi, talvez o que senti ou julguei, por breves instantes, sentir. A expressividade do teu rosto que hoje nada mais me lembra do que um semblante talvez simpático. Terás um olhar sedutor mas não mais para mim. Certamente continuarás a atrair muitos corações ou apenas instintos femininos! Continuo a achar que tens uma personalidade forte, que és muito seguro e confiante mas confesso que não tanto como imaginava. Talvez achasse que não tinhas pontos mais frágeis, mas tens, como toda a gente. És muito virtuoso, mas há tantos artistas de nível igual ou mesmo superior. Mesmo que não transpirasses tanto talento, continuavas a ser especial. Reparei também que por vezes o teu cérebro se deixa dominar pelo coração. És humano, felizmente!
Nunca cheguei a saber se conhecias o Nocturno do Sonho de Uma Noite de Verão. Estar contigo foi o meu sonho em muitas noites deste Verão, que termina nesta madrugada. Chamei por ti mas não me ouviste. Não consegui ouvir a tua música fundida na orquestra da sociedade. Sabia que estavas lá mas não distinguia o teu som entre tantos. Pois claro, o nome do instrumento… Seria mais um violino entre tantos os outros? A delicadeza de uma harpa? Ferrinhos? Viola? Ok, nem se ouve na orquestra, coitadinho!
Comecei a falar de ti às três da madrugada e acabo quase à mesma hora! Mas desta vez já não me perco a falar de ti. Muito menos a esperar e a procurar-te na paisagem da multidão.
Já não estás aí porque perdeste a paciência para me ouvires. De facto perdi muitas horas mergulhada na complexidade no teu ser. Valeu a pena, fiz muitos progressos na minha capacidade de análise! Consegui perceber, mais ou menos, como funcionas e até nem fiquei decepcionada. Só que talvez não sejas o que procuro, se é que procuro algo!
Descobri também que não és indiferente ao mundo dos afectos, que também não escapaste ao vulcão em actividade, a ferver, a incendiar o que ainda não ardeu! Serás mais um príncipe do nada, metido com um princesa igualmente inútil. Não sei, nem quero saber, porque no fundo são todos iguais, homens e mulheres, a par com a inutilidade que corrompe a réstia de humanidade, o romantismo talvez ainda mais improfícuo. Por isso a treta da virilidade ainda é terrivelmente tão estúpida como eu ao perder tempo a debater a superfície do ego masculino.
E se realmente vieres a ser eleito rei de qualquer esterco, apenas emigrarei sem preparar revolução alguma porque mesmo que sejas corrompido à exaustão será impossível eliminarem o teu âmago íntegro e afável.
Confesso que esperava mais de ti. Mas também é um grande defeito meu esperar mais das pessoas do que elas podem e são capazes de dar e ser. Nada do que disse abala a nossa amizade. Não tens culpa de eu pensar que tinhas mais valor para mim do que realmente tens.
As respostas que procuras não sou que tas vou dar. E agora acho que nem as minhas tas posso encarecidamente oferecer. Acho que nem as minhas a mim mesma consigo dar.
Espero que as nuvens não estejam furadas nem o teu anjo da guarda faça greve. Não quero ver a tristeza dos teus olhos a contagiar o teu rosto, a tua alma. Quero que os teus passos sejam seguros e que o teu coração tenha a capacidade de se refazer das mágoas, as feridas curadas com anestesia e o sistema imunitário na máxima força.
A esta hora estás tu mergulhado nos sonhos, na certeza de que vais ser alguém. . Se tivesse a ilusão dos dezoito anos seria possível acreditar que eras um anjo, assim fico-me pela ideia que, até prova em contrário, és um tipo porreiro que merece ser feliz, mesmo sem asas nem auréola nem aquela fatiota branca.
Continuo a querer que os teus passos te levem ao possível do impossível. Ficar-me-ei pela fila dos amigos que te aplaudem, no grande auditório do mundo, porque a tua vida ainda agora começou… e a mim só me resta dizer-te que amar-te-ei sempre mas sempre (e apenas) como amiga, aliás, como sempre o fui.
Fica bem e sê mesmo muito feliz!
Sandra Bastos
Só guardo boas recordações tuas. Uma amizade talvez para toda a vida. Momentos fantásticos, onde partilhamos emoções, ideias, conhecimentos, sentimentos, dúvidas… Caminhei perto de ti tanto tempo que me custa imaginar-te longe dos meus passos. Falo e falarei de ti como amigo. Porque isso sempre foi o mais importante para além de qualquer ilusão, de qualquer desejo de intensificar algum sentimento mais especial. Tenho a tua amizade, que guardarei comigo como um bem precioso, esteja onde estiver.
Como não tenho nada de novo para te dizer além de que esta é a última vez que te escrevo, que o meu sentimento se esgotou, sem que alguma coisa o aniquilasse, apareceu de repente e quase da mesma forma desapareceu, sem saber muito bem como, tão naturalmente como o envelhecimento dos seres vivos.
Em tua homenagem revejo o que escrevi, talvez o que senti ou julguei, por breves instantes, sentir. A expressividade do teu rosto que hoje nada mais me lembra do que um semblante talvez simpático. Terás um olhar sedutor mas não mais para mim. Certamente continuarás a atrair muitos corações ou apenas instintos femininos! Continuo a achar que tens uma personalidade forte, que és muito seguro e confiante mas confesso que não tanto como imaginava. Talvez achasse que não tinhas pontos mais frágeis, mas tens, como toda a gente. És muito virtuoso, mas há tantos artistas de nível igual ou mesmo superior. Mesmo que não transpirasses tanto talento, continuavas a ser especial. Reparei também que por vezes o teu cérebro se deixa dominar pelo coração. És humano, felizmente!
Nunca cheguei a saber se conhecias o Nocturno do Sonho de Uma Noite de Verão. Estar contigo foi o meu sonho em muitas noites deste Verão, que termina nesta madrugada. Chamei por ti mas não me ouviste. Não consegui ouvir a tua música fundida na orquestra da sociedade. Sabia que estavas lá mas não distinguia o teu som entre tantos. Pois claro, o nome do instrumento… Seria mais um violino entre tantos os outros? A delicadeza de uma harpa? Ferrinhos? Viola? Ok, nem se ouve na orquestra, coitadinho!
Comecei a falar de ti às três da madrugada e acabo quase à mesma hora! Mas desta vez já não me perco a falar de ti. Muito menos a esperar e a procurar-te na paisagem da multidão.
Já não estás aí porque perdeste a paciência para me ouvires. De facto perdi muitas horas mergulhada na complexidade no teu ser. Valeu a pena, fiz muitos progressos na minha capacidade de análise! Consegui perceber, mais ou menos, como funcionas e até nem fiquei decepcionada. Só que talvez não sejas o que procuro, se é que procuro algo!
Descobri também que não és indiferente ao mundo dos afectos, que também não escapaste ao vulcão em actividade, a ferver, a incendiar o que ainda não ardeu! Serás mais um príncipe do nada, metido com um princesa igualmente inútil. Não sei, nem quero saber, porque no fundo são todos iguais, homens e mulheres, a par com a inutilidade que corrompe a réstia de humanidade, o romantismo talvez ainda mais improfícuo. Por isso a treta da virilidade ainda é terrivelmente tão estúpida como eu ao perder tempo a debater a superfície do ego masculino.
E se realmente vieres a ser eleito rei de qualquer esterco, apenas emigrarei sem preparar revolução alguma porque mesmo que sejas corrompido à exaustão será impossível eliminarem o teu âmago íntegro e afável.
Confesso que esperava mais de ti. Mas também é um grande defeito meu esperar mais das pessoas do que elas podem e são capazes de dar e ser. Nada do que disse abala a nossa amizade. Não tens culpa de eu pensar que tinhas mais valor para mim do que realmente tens.
As respostas que procuras não sou que tas vou dar. E agora acho que nem as minhas tas posso encarecidamente oferecer. Acho que nem as minhas a mim mesma consigo dar.
Espero que as nuvens não estejam furadas nem o teu anjo da guarda faça greve. Não quero ver a tristeza dos teus olhos a contagiar o teu rosto, a tua alma. Quero que os teus passos sejam seguros e que o teu coração tenha a capacidade de se refazer das mágoas, as feridas curadas com anestesia e o sistema imunitário na máxima força.
A esta hora estás tu mergulhado nos sonhos, na certeza de que vais ser alguém. . Se tivesse a ilusão dos dezoito anos seria possível acreditar que eras um anjo, assim fico-me pela ideia que, até prova em contrário, és um tipo porreiro que merece ser feliz, mesmo sem asas nem auréola nem aquela fatiota branca.
Continuo a querer que os teus passos te levem ao possível do impossível. Ficar-me-ei pela fila dos amigos que te aplaudem, no grande auditório do mundo, porque a tua vida ainda agora começou… e a mim só me resta dizer-te que amar-te-ei sempre mas sempre (e apenas) como amiga, aliás, como sempre o fui.
Fica bem e sê mesmo muito feliz!
Sandra Bastos
sábado, setembro 16, 2006
Nota biográfica, escrita por Fernando Pessoa
Nome completo: Fernando António Nogueira Pessoa.
Idade e naturalidade: Nasceu em Lisboa, freguesia dos Mártires, no prédio n.º 4 do Largo de S. Carlos (hoje do Directório) em 13 de Junho de 1888.
Filiação: Filho legítimo de Joaquim de Seabra Pessoa e de D. Maria Madalena Pinheiro Nogueira. Neto paterno do general Joaquim António de Araújo Pessoa, combatente das campanhas liberais, e de D. Dionísia Seabra; neto materno do conselheiro Luís António Nogueira, jurisconsulto e que foi Director-Geral do Ministério do Reino, e de D. Madalena Xavier Pinheiro. Ascendência geral: misto de fidalgos e judeus.
Estado: Solteiro.
Profissão: A designação mais própria será «tradutor», a mais exacta a de «correspondente estrangeiro em casas comerciais». O ser poeta e escritor não constitui profissão, mas vocação.
Morada: Rua Coelho da Rocha, 16, 1º. Dto. Lisboa. (Endereço postal - Caixa Postal 147, Lisboa).
Funções sociais que tem desempenhado: Se por isso se entende cargos públicos, ou funções de destaque, nenhumas.
Obras que tem publicado: A obra está essencialmente dispersa, por enquanto, por várias revistas e publicações ocasionais. O que, de livros ou folhetos, considera como válido, é o seguinte: «35 Sonnets» (em inglês), 1918; «English Poems I-II» e «English Poems III» (em inglês também), 1922, e o livro «Mensagem», 1934, premiado pelo Secretariado de Propaganda Nacional, na categoria «Poema». O folheto «O Interregno», publicado em 1928, e constituído por uma defesa da Ditadura Militar em Portugal, deve ser considerado como não existente. Há que rever tudo isso e talvez que repudiar muito.
Educação: Em virtude de, falecido seu pai em 1893, sua mãe ter casado, em 1895, em segundas núpcias, com o Comandante João Miguel Rosa, Cônsul de Portugal em Durban, Natal, foi ali educado. Ganhou o prémio Rainha Vitória de estilo inglês na Universidade do Cabo da Boa Esperança em 1903, no exame de admissão, aos 15 anos.
Ideologia Política: Considera que o sistema monárquico seria o mais próprio para uma nação organicamente imperial como é Portugal. Considera, ao mesmo tempo, a Monarquia completamente inviável em Portugal. Por isso, a haver um plebiscito entre regimes, votaria, embora com pena, pela República. Conservador do estilo inglês, isto é, liberdade dentro do conservantismo, e absolutamente anti-reaccionário.
Posição religiosa: Cristão gnóstico e portanto inteiramente oposto a todas as Igrejas organizadas, e sobretudo à Igreja de Roma. Fiel, por motivos que mais adiante estão implícitos, à Tradição Secreta do Cristianismo, que tem íntimas relações com a Tradição Secreta em Israel (a Santa Kabbalah) e com a essência oculta da Maçonaria.
Posição iniciática: Iniciado, por comunicação directa de Mestre a Discípulo, nos três graus menores da (aparentemente extinta) Ordem Templária de Portugal.
Posição patriótica: Partidário de um nacionalismo místico, de onde seja abolida toda a infiltração católico-romana, criando-se, se possível for, um sebastianismo novo, que a substitua espiritualmente, se é que no catolicismo português houve alguma vez espiritualidade. Nacionalista que se guia por este lema: «Tudo pela Humanidade; nada contra a Nação».
Posição social: Anticomunista e anti-socialista. O mais deduz-se do que vai dito acima.
Resumo de estas últimas considerações: Ter sempre na memória o mártir Jacques de Molay, Grão-Mestre dos Templários, e combater, sempre e em toda a parte, os seus três assassinos - a Ignorância, o Fanatismo e a Tirania.
Lisboa, 30 de Março de 1935 [no original 1933, por aparente lapso]
Se depois de eu morrer
"Se depois de eu morrer, quiserem escrever a minha biografia,
Não há nada mais simples
Tem só duas datas — a da minha nascença e a da minha morte.
Entre uma e outra cousa todos os dias são meus.
Sou fácil de definir.
Vi como um danado.
Amei as cousas sem sentimentalidade nenhuma.
Nunca tive um desejo que não pudesse realizar, porque nunca ceguei.
Mesmo ouvir nunca foi para mim senão um acompanhamento de ver.
Compreendi que as cousas são reais e todas diferentes umas das outras;
Compreendi isto com os olhos, nunca com o pensamento.
Compreender isto com o pensamento seria achá-las todas iguais.
Um dia deu-me o sono como a qualquer criança.
Fechei os olhos e dormi.
Além disso, fui o único poeta da Natureza."
Alberto Caeiro
Não há nada mais simples
Tem só duas datas — a da minha nascença e a da minha morte.
Entre uma e outra cousa todos os dias são meus.
Sou fácil de definir.
Vi como um danado.
Amei as cousas sem sentimentalidade nenhuma.
Nunca tive um desejo que não pudesse realizar, porque nunca ceguei.
Mesmo ouvir nunca foi para mim senão um acompanhamento de ver.
Compreendi que as cousas são reais e todas diferentes umas das outras;
Compreendi isto com os olhos, nunca com o pensamento.
Compreender isto com o pensamento seria achá-las todas iguais.
Um dia deu-me o sono como a qualquer criança.
Fechei os olhos e dormi.
Além disso, fui o único poeta da Natureza."
Alberto Caeiro
Alberto Caeiro

Alberto Caeiro da Silva nasceu em 1889, em Lisboa, onde mais tarde viria a falecer, em 1915, vítima de tuberculose. Não obstante a sua origem urbana, é conhecido pela sua expressão rural, tendo sido pastor numa quinta do Ribatejo.
Partindo do princípio de que nada existe para além do que se vê, Alberto Caeiro cultiva uma espécie de “filosofia do não filosofar”. A sua obra poética é marcada pela contemplação da natureza através dos sentidos, procurando “sentir as coisas simples da vida com maior intensidade”.
“Mesmo assim, enquanto tenta provar que não intelectualiza nada, é o que mais intelectualiza entre as personalidades pessoanas, parece usar o raciocínio sem querer demonstrar isso. Daí ser o mais infeliz, por restringir o mundo, além de fugir do progresso e a ele renunciar.” (Batista de Lima in «Jornal da Poesia»)
segunda-feira, setembro 11, 2006
Chamo-te sem saber quem és
Estou sentada na areia fina de uma praia. Sinto o cheiro da água salgada, a brisa que enrodilha o meu cabelo enquanto me deixo levar pela contemplação do pôr-do-sol. Uma luz forte mas que não fere, atinge o meu âmago, faz-me esquecer quem sou, onde estou e para onde vou.
Longe de mim mesma mergulho nas divagações ensombrada por uma imagem que caminha pelo mar rebelde. É um homem que transpira beleza mas no qual se distingue um olhar triste. Olha distraído para o chão à procura dos sentimentos que perdeu algures entre a multidão. Vejo-lhe a alma, nítida pela transparência do seu corpo, leio-lhe os pensamentos… que diferente ele é! Tão puro e disposto a ser corrompido!
Chamo-o sem saber que nome tem. Não me ouve com a concentração em coisas inúteis mas sentimentais, ingénuas mas compreensíveis. Não insisto até porque me faltam as forças, a voz enfraquecida… Mas porquê chamar uma pessoa que não me ouve? Que passa por mim e nem me vê? Outros hão-de vir, outros passarão, quem sabe se ficam para me ouvir um pouco e haja algum que acabe por ficar para sempre.
O que mais me impressiona é a minha calma talvez indiferente. Como não me preocupa se não me ouvem! Se os meus gritos fazem eco no oceano mas não são perceptíveis ao ouvido humano.
Como é boa a vida e bonito o pôr-do-sol! A luz que ilumina mas não fere!
Amo-te! A ti que não conheço nem sei quando vou realizar o sonho de te conhecer. A ti, que és o único que dispensará os meus gritos para me ouvir, que não precisará que o chame para me poder ver. A ti que amarei para além das minhas forças e que não precisarei de provar até onde poderei ir para te fazer feliz! A ti que caminhas no deserto da multidão à procura da intensidade do momento, do melhor que o pior pode ter. A ti que tens o que os outros não têm. A ti que bastará um olhar para sentir o quanto me amas.
Continuo à tua espera… mesmo que ainda estejas do outro lado do oceano e que ainda seja demasiado cedo para nos amarmos… mesmo que ainda tenhamos de conhecer muitas pessoas erradas até termos a certeza de que fomos feitos um para o outro.
Sim, serás músico. Qual é o teu instrumento? Eu sabia que adoravas o concerto para violoncelo de Elgar, que a trompa te ia encantar e que o fagote era irresistível. Todos os outros apenas servem para nos acompanhar…
Longe de mim mesma mergulho nas divagações ensombrada por uma imagem que caminha pelo mar rebelde. É um homem que transpira beleza mas no qual se distingue um olhar triste. Olha distraído para o chão à procura dos sentimentos que perdeu algures entre a multidão. Vejo-lhe a alma, nítida pela transparência do seu corpo, leio-lhe os pensamentos… que diferente ele é! Tão puro e disposto a ser corrompido!
Chamo-o sem saber que nome tem. Não me ouve com a concentração em coisas inúteis mas sentimentais, ingénuas mas compreensíveis. Não insisto até porque me faltam as forças, a voz enfraquecida… Mas porquê chamar uma pessoa que não me ouve? Que passa por mim e nem me vê? Outros hão-de vir, outros passarão, quem sabe se ficam para me ouvir um pouco e haja algum que acabe por ficar para sempre.
O que mais me impressiona é a minha calma talvez indiferente. Como não me preocupa se não me ouvem! Se os meus gritos fazem eco no oceano mas não são perceptíveis ao ouvido humano.
Como é boa a vida e bonito o pôr-do-sol! A luz que ilumina mas não fere!
Amo-te! A ti que não conheço nem sei quando vou realizar o sonho de te conhecer. A ti, que és o único que dispensará os meus gritos para me ouvir, que não precisará que o chame para me poder ver. A ti que amarei para além das minhas forças e que não precisarei de provar até onde poderei ir para te fazer feliz! A ti que caminhas no deserto da multidão à procura da intensidade do momento, do melhor que o pior pode ter. A ti que tens o que os outros não têm. A ti que bastará um olhar para sentir o quanto me amas.
Continuo à tua espera… mesmo que ainda estejas do outro lado do oceano e que ainda seja demasiado cedo para nos amarmos… mesmo que ainda tenhamos de conhecer muitas pessoas erradas até termos a certeza de que fomos feitos um para o outro.
Sim, serás músico. Qual é o teu instrumento? Eu sabia que adoravas o concerto para violoncelo de Elgar, que a trompa te ia encantar e que o fagote era irresistível. Todos os outros apenas servem para nos acompanhar…
quarta-feira, agosto 30, 2006
Criação de Alberto Caeiro
«... lembrei-me um dia de fazer uma partida ao Sá-Carneiro – de inventar um poeta bucolico, de especie complicada, e apresentar-lh’o, já não me lembro como, em qualquer especie de realidade. Levei uns dias a elaborar o poeta mas nada consegui. Num dia em que finalmente desistira – foi em 8 de Março de 1914 – acerquei-me de uma commoda alta, e, tomando um papel, comecei a escrever, de pé, como escrevo sempre que posso. E escrevi trinta e tantos poemas a fio, numa especie de extase cuja natureza não conseguirei definir. Foi o dia triumphal da minha vida, e nunca poderei ter outro assim. Abri com um titulo, “O Guardador de Rebanhos”. E o que se seguiu foi o apparecimento de alguem em mim, a quem dei logo o nome de Alberto Caeiro. Desculpe-me o absurdo da phrase: apparecera em mim o meu mestre.»
Fernando Pessoa
Fernando Pessoa
quarta-feira, agosto 09, 2006
Se alguém bater um dia à tua porta
"Se alguém bater um dia à tua porta,
Dizendo que é um emissário meu,
Não acredites, nem que seja eu;
Que o meu vaidoso orgulho não comporta
Bater sequer à porta irreal do céu.
Mas se, naturalmente, e sem ouvir
Alguém bater, fores a porta abrir
E encontrares alguém como que à espera
De ousar bater, medita um pouco. Esse era
Meu emissário e eu e o que comporta
O meu orgulho do que desespera.
Abre a quem não bater à tua porta!"
Fernando Pessoa
Dizendo que é um emissário meu,
Não acredites, nem que seja eu;
Que o meu vaidoso orgulho não comporta
Bater sequer à porta irreal do céu.
Mas se, naturalmente, e sem ouvir
Alguém bater, fores a porta abrir
E encontrares alguém como que à espera
De ousar bater, medita um pouco. Esse era
Meu emissário e eu e o que comporta
O meu orgulho do que desespera.
Abre a quem não bater à tua porta!"
Fernando Pessoa
terça-feira, agosto 08, 2006
A nossa Herança!
Herdámos uma grande casa,
a grande casa do Mundo.
Na qual devemos conviver.
Negros, brancos,
ocidentais e orientais,
hebreus, não hebreus
católicos e protestantes,
muçulmanos e hinduístas.
Uma família que, injustamente, está dividida
por ideias, culturas e interesses.
Dado que já não podemos viver separados.
Devemos aprender a conviver em paz.
TODOS OS HABITANTES DO MUNDO SÃO VIZINHOS.
Martin Luther King
a grande casa do Mundo.
Na qual devemos conviver.
Negros, brancos,
ocidentais e orientais,
hebreus, não hebreus
católicos e protestantes,
muçulmanos e hinduístas.
Uma família que, injustamente, está dividida
por ideias, culturas e interesses.
Dado que já não podemos viver separados.
Devemos aprender a conviver em paz.
TODOS OS HABITANTES DO MUNDO SÃO VIZINHOS.
Martin Luther King
segunda-feira, agosto 07, 2006
Desabafo de um coração apertado!
Sem pressa partiu cheio de esperança e entusiasmo. Pelo caminho a vontade esmoreceu e com ela a nitidez da chegada. A cada passo o espectro da sombra de um louco a perturbar as emoções e a causar medo...
Com ele leva uma vida feita de sonhos, uma humanidade cansada e as feridas do tempo cruel. Os seus olhos, marcados pela tristeza, olham no vazio a cada passo que dá. Mil pedaços de nada preenchem o seu coração oprimido pela aridez do chão que pisa.
Lá vai, caminha desmotivado rumo a um lugar que sabe que não existe, procura uma certeza que o aprisiona por ser incerta e adormece no meio da estrada sem a vontade de acordar para retomar o caminho.
Em busca de descanso apenas, esbarra com uma vida repleta de felicidade que o procura em sonhos durante o sono.... mas ele apenas queria dormir... já lhe faltava a força para voltar a acreditar.
Esperança Martins
Com ele leva uma vida feita de sonhos, uma humanidade cansada e as feridas do tempo cruel. Os seus olhos, marcados pela tristeza, olham no vazio a cada passo que dá. Mil pedaços de nada preenchem o seu coração oprimido pela aridez do chão que pisa.
Lá vai, caminha desmotivado rumo a um lugar que sabe que não existe, procura uma certeza que o aprisiona por ser incerta e adormece no meio da estrada sem a vontade de acordar para retomar o caminho.
Em busca de descanso apenas, esbarra com uma vida repleta de felicidade que o procura em sonhos durante o sono.... mas ele apenas queria dormir... já lhe faltava a força para voltar a acreditar.
Esperança Martins
sexta-feira, agosto 04, 2006
Isto é mesmo divagar...
Bem, a ausência de textos meus, alguns que até parecem muito pessoais (se forem realmente sinceros), prende-se com o facto de estar concentrada no meu novo livro. Mas numa vaga poderá surgir alguma coisa... quem sabe! Depende do tempo, sempre tão incerto e escasso. Tantos planos e na prática o cansaço apodera-se de mim, aniquilando os restos de energia.
Amanhã tenho de me pôr a pé mais cedo, sabe-se lá porquê. Os sonhos e as ilusões comandam a vida. Até que se desfaçam em desilusões, até cairmos na realidade, até aterrarmos.
Amigas, nada está perdido. Acreditem que a solução está em nós mesmas. A força de que precisamos, a vontade em continuar a lutar mesmo que seja por sonhos absurdos... isso está cá dentro e ninguém nos pode tirar. E depois há a maravilhosa paisagem da natureza também humana. Um gelado delicioso, uma boas gargalhadas e tudo parece ficar bem. E fica, sem esses momentos únicos de diversão e lazer que seria da nossa vida? Uma miséria.
Sabem a liberdade é uma coisa tão... fundamental. Que prazer supera usarmos os nossos próprios neurónios? Não depender de ninguém para falar ou dar a resposta certa. Imagina se vivessemos numa ditadura. Mais frequente, numa relação ditatorial. Oh, não podias dizer nada sem que passasse primeiro na censura. Não te rias, conheço tantos exemplos. Sei bem do que estou a falar. Talvez infelizmente.
Sim, amigas, eu sei dessa treta toda e só não vos apresento estatísticas porque não vos quero desanimar. Vós não mereceis sofrer. Tendes o direito, a obrigação de lutar pelos vossos sonhos. Queria sonhar como vós, mas não consigo. A realidade aniquila esses sonhos. Resta-me um... ser feliz!
E se a liberdade me traz tanta felicidade, que valor seria superior à minha querida liberdade?
Não, desculpem mas não acredito. Neste caso sou como Tomé, só vendo... ou vivendo.
Isto tudo a propósito da minha concentração no meu livro e na falta de textos originais neste blogue... oh como não resisto a uma divagação...
E tu, devias pensar também em conquistar os outros... em geral, claro. Porque isso de estares habituado a que todos te façam a corte não te prepara para as adversidades. Um dia as coisas podem ser diferentes. Mas, sabes, tens toda a razão, há que ser rei enquanto houver monarquia, depois se vier a república tu lá arranjarás uma solução para sobreviveres. Desculpa, sou mesmo republicana por isso recuso-me a fazer-te uma vénia. E com tantos súbditos a ajoelharem-se perante ti, certamente nem te vais aperceber que preparo um golpe de estado para te tirar essas mordomias. Em último caso, se não assistir à revolução peço o exílio antes de fazeres de mim uma presa política. Ok, és um bom rei. Vaidoso mas inteligente. Devo exagerar. E a monarquia, bem lá no fundo do fundo, deve ter algo de positivo. Quem sabe se não és um novo D. Sebastião que vai surgir no nevoeiro para salvar a pátria?
Nessa nem vendo acreditaria... Há coisas que nem mesmo se as apalparmos nos parecem reais. É hora... de dormir. E também despertar para as injustiças. Oh, se este mundo fosse mesmo bom... se tipos como tu nunca chegassem a reis... se as pessoas estúpidas pensassem... e se os neurónios estivessem no coração...
Sandra Bastos
Amanhã tenho de me pôr a pé mais cedo, sabe-se lá porquê. Os sonhos e as ilusões comandam a vida. Até que se desfaçam em desilusões, até cairmos na realidade, até aterrarmos.
Amigas, nada está perdido. Acreditem que a solução está em nós mesmas. A força de que precisamos, a vontade em continuar a lutar mesmo que seja por sonhos absurdos... isso está cá dentro e ninguém nos pode tirar. E depois há a maravilhosa paisagem da natureza também humana. Um gelado delicioso, uma boas gargalhadas e tudo parece ficar bem. E fica, sem esses momentos únicos de diversão e lazer que seria da nossa vida? Uma miséria.
Sabem a liberdade é uma coisa tão... fundamental. Que prazer supera usarmos os nossos próprios neurónios? Não depender de ninguém para falar ou dar a resposta certa. Imagina se vivessemos numa ditadura. Mais frequente, numa relação ditatorial. Oh, não podias dizer nada sem que passasse primeiro na censura. Não te rias, conheço tantos exemplos. Sei bem do que estou a falar. Talvez infelizmente.
Sim, amigas, eu sei dessa treta toda e só não vos apresento estatísticas porque não vos quero desanimar. Vós não mereceis sofrer. Tendes o direito, a obrigação de lutar pelos vossos sonhos. Queria sonhar como vós, mas não consigo. A realidade aniquila esses sonhos. Resta-me um... ser feliz!
E se a liberdade me traz tanta felicidade, que valor seria superior à minha querida liberdade?
Não, desculpem mas não acredito. Neste caso sou como Tomé, só vendo... ou vivendo.
Isto tudo a propósito da minha concentração no meu livro e na falta de textos originais neste blogue... oh como não resisto a uma divagação...
E tu, devias pensar também em conquistar os outros... em geral, claro. Porque isso de estares habituado a que todos te façam a corte não te prepara para as adversidades. Um dia as coisas podem ser diferentes. Mas, sabes, tens toda a razão, há que ser rei enquanto houver monarquia, depois se vier a república tu lá arranjarás uma solução para sobreviveres. Desculpa, sou mesmo republicana por isso recuso-me a fazer-te uma vénia. E com tantos súbditos a ajoelharem-se perante ti, certamente nem te vais aperceber que preparo um golpe de estado para te tirar essas mordomias. Em último caso, se não assistir à revolução peço o exílio antes de fazeres de mim uma presa política. Ok, és um bom rei. Vaidoso mas inteligente. Devo exagerar. E a monarquia, bem lá no fundo do fundo, deve ter algo de positivo. Quem sabe se não és um novo D. Sebastião que vai surgir no nevoeiro para salvar a pátria?
Nessa nem vendo acreditaria... Há coisas que nem mesmo se as apalparmos nos parecem reais. É hora... de dormir. E também despertar para as injustiças. Oh, se este mundo fosse mesmo bom... se tipos como tu nunca chegassem a reis... se as pessoas estúpidas pensassem... e se os neurónios estivessem no coração...
Sandra Bastos
quinta-feira, agosto 03, 2006
O amor, quando se revela...
O amor, quando se revela...
O amor, quando se revela,
Não se sabe revelar.
Sabe bem olhar p'ra ela,
Mas não lhe sabe falar.
Quem quer dizer o que sente
Não sabe o que há-de dizer.
Fala: parece que mente
Cala: parece esquecer
Ah, mas se ela adivinhasse,
Se pudesse ouvir o olhar,
E se um olhar lhe bastasse
Pra saber que a estão a amar!
Mas quem sente muito, cala;
Quem quer dizer quanto sente
Fica sem alma nem fala,
Fica só, inteiramente!
Mas se isto puder contar-lhe
O que não lhe ouso contar,
Já não terei que falar-lhe
Porque lhe estou a falar...
Fernando Pessoa
O amor, quando se revela,
Não se sabe revelar.
Sabe bem olhar p'ra ela,
Mas não lhe sabe falar.
Quem quer dizer o que sente
Não sabe o que há-de dizer.
Fala: parece que mente
Cala: parece esquecer
Ah, mas se ela adivinhasse,
Se pudesse ouvir o olhar,
E se um olhar lhe bastasse
Pra saber que a estão a amar!
Mas quem sente muito, cala;
Quem quer dizer quanto sente
Fica sem alma nem fala,
Fica só, inteiramente!
Mas se isto puder contar-lhe
O que não lhe ouso contar,
Já não terei que falar-lhe
Porque lhe estou a falar...
Fernando Pessoa
Quando estou só reconheço
"Quando estou só reconheço
Se por momentos me esqueço
Que existo entre outros que são
Como eu sós, salvo que estão
Alheados desde o começo.
E se sinto quanto estou
Verdadeiramente só,
Sinto-me livre mas triste.
Vou livre para onde vou,
Mas onde vou nada existe.
Creio contudo que a vida
Devidamente entendida
É toda assim, toda assim.
Por isso passo por mim
Como por cousa esquecida."
Fernando Pessoa
Se por momentos me esqueço
Que existo entre outros que são
Como eu sós, salvo que estão
Alheados desde o começo.
E se sinto quanto estou
Verdadeiramente só,
Sinto-me livre mas triste.
Vou livre para onde vou,
Mas onde vou nada existe.
Creio contudo que a vida
Devidamente entendida
É toda assim, toda assim.
Por isso passo por mim
Como por cousa esquecida."
Fernando Pessoa
quarta-feira, agosto 02, 2006
Segue o teu destino
"Segue o teu destino,
Rega as tuas plantas,
Ama as tuas rosas.
O resto é a sombra
De árvores alheias.
A realidade
Sempre é mais ou menos
Do que nós queremos.
Só nós somos sempre
Iguais a nós-próprios.
Suave é viver só.
Grande e nobre é sempre
Viver simplesmente.
Deixa a dor nas aras
Como ex-voto aos deuses.
Vê de longe a vida.
Nunca a interrogues.
Ela nada pode
Dizer-te. A resposta
Está além dos deuses.
Mas serenamente
Imita o Olimpo
No teu coração.
Os deuses são deuses
Porque não se pensam."
Ricardo Reis
Rega as tuas plantas,
Ama as tuas rosas.
O resto é a sombra
De árvores alheias.
A realidade
Sempre é mais ou menos
Do que nós queremos.
Só nós somos sempre
Iguais a nós-próprios.
Suave é viver só.
Grande e nobre é sempre
Viver simplesmente.
Deixa a dor nas aras
Como ex-voto aos deuses.
Vê de longe a vida.
Nunca a interrogues.
Ela nada pode
Dizer-te. A resposta
Está além dos deuses.
Mas serenamente
Imita o Olimpo
No teu coração.
Os deuses são deuses
Porque não se pensam."
Ricardo Reis
Assim se escreve em bom português!!!
Preciosismos da língua
É possível que o leitor esteja a ler este artigo agora na sua cama, com a ajuda dos seus nasóculos e à luz suave de um lucivelo. Os artigos escritos pelos alvissareiros misturam-se, harmoniosamente, aos preconícios que louvam as virtudes de sortidos produtos. Está calor neste final de primavera, e decerto o nosso leitor não retira há muito tempo da sua gaveta o focale que lhe aquece o pescoço no frio. E provavelmente terá reparado como é grande, nos últimos tempos, o número de ludâmbulos que, vindos de outros Estados e até de outros países, se abalam a conhecer os encantos da cidade.
Baseado em Castro Lopes – Neologismos Indispensáveis e Barbarismos Dispensáveis
É possível que o leitor esteja a ler este artigo agora na sua cama, com a ajuda dos seus nasóculos e à luz suave de um lucivelo. Os artigos escritos pelos alvissareiros misturam-se, harmoniosamente, aos preconícios que louvam as virtudes de sortidos produtos. Está calor neste final de primavera, e decerto o nosso leitor não retira há muito tempo da sua gaveta o focale que lhe aquece o pescoço no frio. E provavelmente terá reparado como é grande, nos últimos tempos, o número de ludâmbulos que, vindos de outros Estados e até de outros países, se abalam a conhecer os encantos da cidade.
Baseado em Castro Lopes – Neologismos Indispensáveis e Barbarismos Dispensáveis
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