sexta-feira, fevereiro 23, 2007

Exigimos respeito pelo Professor

*Carta a Miguel Sousa Tavares*

No número 1784 do Jornal Expresso, publicado no passado dia 6 deJaneiro, o colunista Miguel Sousa Tavares desferiu um violentíssimo ataque contra os professores (que não queriam fazer horas de substituição), assim como contra os médicos (que passavam atestados falsos) e contra os juízes (que, na relação laboral, pendiam para os mais fracos e até tinham condenado o Ministério da Educação a pagar horas extraordinárias pelas aulas de substituição). Em qualquer país civilizado, quem é atacado tem o direito de se defender. De modo que a professora Dalila Cabrita Mateus, sentindo-se atingida, enviou ao Director do Expresso, uma carta aberta ao jornalista Miguel Sousa Tavares. Contudo, como é timbre dum jornal de referência que aprecia o contraditório, de modo a poder esclarecer devidamente os seus leitores, o Expresso não publicou a carta enviada.
Aqui vai, pois, a tal Carta Aberta, que circula pela Net. Para que seja divulgada mais amplamente, pois, felizmente, ainda existe em Portugal liberdade de expressão.
*Carta duma professora*
«Não é a primeira vez que tenho a oportunidade de ler textos escritos pelo jornalista Miguel Sousa Tavares. Anoto que escreve sobre tudo e mais alguma coisa, mesmo quando depois se verifica que conhece mal os problemas que aborda. É o caso, por exemplo, dos temas relacionados com a educação, com as escolas e com os professores. E pensava eu que o código deontológico dos jornalistas obrigava a realizar um trabalho prévio de pesquisa, a ouvir as partes envolvidas, para depois escrever sobre a temática de forma séria e isenta.
O senhor jornalista e a ministra que defende não devem saber o que é ter uma turma de 28 a 30 alunos, estando atenta aos que conversam com os colegas, aos que estão distraídos, ao que se levanta de repente para esmurrar o colega, aos que não passam os apontamentos escritos no quadro, ao que, de repente, resolve sair da sala de aula.
Não sabe o trabalho que dá disciplinar uma turma. E o professor tem várias turmas. O senhor jornalista não sabe (embora a ministra deva saber) o enorme trabalho burocrático que recai sobre os professores, a acrescer à planificação e preparação das aulas. O senhor jornalista não sabe (embora devesse saber) o que é ensinar obedecendo a programas baseados em doutrinas pedagógicas pimba, que têm como denominador comum o ódio visceral à História ou à Literatura, às Ciências ou à Filosofia, que substituíram conteúdos por competências, que transformaram a escola em lugar de recreio, tudo certificado por um Ministério em que impera a ignorância e a incompetência.
O senhor jornalista falta à verdade quando alude ao «flagelo do absentismo dos professores, sem paralelo em nenhum outro sector de actividade, público ou privado». Tal falsidade já foi desmentida com números e por mais de uma vez. Além do que, em nenhuma outra profissão, um simples atraso de 10 minutos significa uma falta imediata. O senhor jornalista não sabe (embora a ministra tenha obrigação desaber) o que é chegar a uma turma que se não conhece, para substituir uma professora que está a ser operada e ouvir os alunos gritarem contra aquela «filha da puta» que, segundo eles, pouco ou nada veio acrescentar ao trabalho pedagógico que vinha a ser desenvolvido.
O senhor jornalista não imagina o que é leccionar turmas em que um aluno tem fome, outro é portador de hepatite, um terceiro chega tarde porque a mãe não o acordou (embora receba o rendimento mínimo nacional para pôr o filho a pé e colocá-lo na escola), um quarto é portador de uma arma branca com que está a ameaçar os colegas. Não imagina (ou não quer imaginar) o que é leccionar quando a miséria cresce nas famílias, pois «em casa em que não há pão, todos ralham e ninguém tem razão».
O senhor jornalista não tem sequer a sensibilidade para se pôr no lugar dos professores e professoras insultados e até agredidos, em resultado de um clima de indisciplina que cresceu com as aulas de substituição, nos moldes em que estão a ser concretizadas.
O senhor jornalista não percebe a sensação que se tem em perder tempo, fazendo uma coisa que pedagogicamente não serve para nada, a não ser para fazer crescer a indisciplina, para cansar e dificultar cada vez mais o estudo sério do professor. Quando, no caso da signatária, até podia continuar a ocupar esse tempo com a investigação em áreas e temas que interessam ao país.
O senhor jornalista recria um novo conceito de justiça. Não castiga o delinquente, mas faz o justo pagar pelo pecador, neste caso o geral dos professores penalizados pela falta dum colega. Aliás, o senhor jornalista insulta os professores, todos os professores, uma casta corporativa com privilégios que ninguém conhece e que não quer trabalhar, fazendo as tais aulas de substituição. O senhor jornalista insulta, ainda, todos os médicos acusando-os de passar atestados, em regra falsos.
Tal como o Ministério, num estranho regresso ao passado, o senhor jornalista passa por cima da lei, neste caso o antigo Estatuto da Carreira Docente, que mandava pagar as aulas de substituição. Aparentemente, o propósito do jornalista Miguel Sousa Tavares não era discutir com seriedade. Era sim (do alto da sua arrogância e prosápia) provocar os professores, os médicos e até os juízes, três castas corporativas. Tudo como propósito de levar a água ao moinho da política neoliberal do governo, neste caso do Ministério da Educação. »
Dalila Cabrita Mateus, professora, doutora em História Moderna eContemporânea».

segunda-feira, fevereiro 19, 2007

Simplesmente Tu!

O ego desprovido da corrupção do mundo, da fraqueza humana, da crueldade que elimina a pureza do ser. Sentir a força, a coragem que me dás sendo apenas tu próprio. Uma confiança que se apodera de mim como a sede de liberdade, a sede de poder ser eu própria e amada como tal.

Tu que chegaste onde nenhum chegou, tu que me deixas ser o que sempre quis mas não o era por medo. O medo que nunca senti a teu lado. Não se explica. Sente-se...

Sandra Bastos
Fevereiro 2007

domingo, fevereiro 11, 2007

Ennio Morricone - Cinema Paradiso

Até que entendeu.

"Quando olhou, o quarto encontrava-se vazio. Ninguém lá estava. A luz brilhava tão intensamente que ela pôde ver as verdadeiras cores das paredes e do chão. Nunca antes vira as paredes. A cama estava vazia. Ela sempre o soubera, mas só agora tomou consciência desse facto. Olhou para o lençol e o cobertor amarrotados do lado onde ela própria dormia, o único que estava a ser usado.

Entrou no quarto e dirigiu-se à janela. Abriu-a. Abriu a janela de par em par. Não sabia porque fizera isto. Até que entendeu. Queria sentir o cheiro forte do mar a bater-lhe no rosto e o fluxo do tempo a percorrer-lhe o corpo, para ficar a saber quem era."

Don DeLillo, em "O Corpo Enquanto Arte"

Corre o risco

"Será que aquilo que está a acontecer é tão diferente das experiências habituais do mundo exterior que te sentes obrigada a arranjar desculpas para justificá-lo, ou a atribuir-lhe o estatuo subalterno de ilusão dos sentidos?
Dar-se-á o caso de a realidade ser demasiado poderosa para ti?
Corre o risco. Acredita no que vês e no que ouves. É a pulsação de todas as sugestões secretas que alguma vez sentiste em torno das margens da tua vida."

Don DeLillo, em "O Corpo Enquanto Arte"

Amor e Cinema Paradiso

Dá livre curso à morte

"Por que não hás-de mergulhar na morte? Deixa que a morte te arraste para o fundo. Dá livre curso à morte.
Por que não há-de a morte de uma pessoa que amamos arrastar-nos para a mais lúgubre decadência? Não sabemos como amar aqueles que amamos até ao dia em que eles desaparecem abruptamente. Só então nos apercebemos daquela pequena distância em relação ao seu sofrimento que poucas vezes soubemos superar, do modo como nos resguardámos, como só raramente abrimos o nosso coração, sempre a tecermos as nossas teias de deve-e-haver."

Don DeLillo, em "O Corpo Enquanto Arte"

O que é que resta?

"Nós não paramos, ficamos despojados, menos seguros de nós mesmos. Não sei. Quando sonhamos ou temos muita febre ou estamos drogados ou deprimidos, é ou não verdade que o tempo abranda ou parece parar? Que é que resta? Quem resta?"

Don DeLillo, em "O Corpo Enquanto Arte"

Eis a regra do tempo

"Significa que a nossa vida e a nossa morte já estão definidas, e só nos é exigido que não faltemos à chamada. (...)

Algo está a acontecer. Aconteceu. Vai acontecer. Eis aquilo em que ele acreditava. Há uma história, um fluxo de consciência e de possibilidades. O futuro toma forma. (...)

Mas que sabia ela? Nada. Eis a regra do tempo. É a coisa da qual nada sabemos. (...)

Passado, presente e futuro não são artifícios de linguagem. O tempo desdobra-se nas costuras do ser. Passa através de nós, cria-nos e molda-nos."

Don DeLillo, em "O Corpo Enquanto Arte"

O tempo é a única narrativa que conta

"O tempo é a única narrativa que conta. Prolonga os acontecimentos e torna possível que sintamos dor e a superemos e que assistamos ao espectáculo da morte e continuemos a viver. Mas não para ele. Ele move-se noutra estrutura, noutra cultura, onde o tempo é uma dimensão à parte, que não oferece abrigo."

Don DeLillo, em "O Corpo Enquanto Arte"

Talvez

"Seja lá como for. A expressão mais frouxa que existe. E mais ou menos. E talvez. Sempre talvez. Ela estava sempre a usar talvezes."

Don DeLillo, em "O Corpo Enquanto Arte"

Tempo

"Nós somos feitos de tempo. É essa a força que nos confere uma identidade própria. Basta fecharmos os olhos e sentimo-la. É o tempo que define a nossa existência."

Don DeLillo, em "O Corpo Enquanto Arte"

Uma pessoa se esquece

"Era o género de dia em que uma pessoa se esquece do que ia fazer e deixa cair coisas e entra numa sala e fica a pensar o que é que veio ali buscar, porque ali entrou por alguma razão foi e acaba por dizer a si mesma que é apenas uma questão de tempo até se lembrar porque a pessoa acaba sempre por se lembrar depois de entrar na sala."

Don DeLillo, em "O Corpo Enquanto Arte"

Memórias do Verão

Chove muito. É com este Inverno que sinto saudades do Verão. O calor, a alegria, os gelados e as noitadas ao ar livre. Sorrisos, olhares e palavras bonitas...

Recordações de um Verão marcado por esta música... mas as imagens estão guardadas na minha memória :)

sexta-feira, fevereiro 09, 2007

ELOGIO AO AMOR (Miguel Esteves Cardoso)

Recebi hoje um mail com este texto...

"Quero fazer o elogio do amor puro.
Parece-me que já ninguém se apaixona de verdade.
Já ninguém quer viver um amor impossível.
Já ninguém aceita amar sem uma razão.

Hoje as pessoas apaixonam-se por uma questão de prática.
Porque dá jeito. Porque são colegas e estão ali mesmo ao lado.
Porque se dão bem e não se chateiam muito. Porque faz sentido. Porque é mais barato, por causa da casa.
Por causa da cama. Por causa das cuecas e das calças e das contas da lavandaria.

Hoje em dia as pessoas fazem contratos pré-nupciais, discutem tudo de antemão, fazem planos e à mínima merdinha entram logo em "diálogo".
O amor passou a ser passível de ser combinado. Os amantes tornaram-se sócios.
Reúnem-se, discutem problemas, tomam decisões.

O amor transformou-se numa variante psico-sócio-bio-ecológica de camaradagem.
A paixão, que devia ser desmedida, é na medida do possível. O amor tornou-se uma questão prática.
O resultado é que as pessoas, em vez de se apaixonarem de verdade, ficam "praticamente" apaixonadas.

Eu quero fazer o elogio do amor puro, do amor cego, do amor estúpido, do amor doente, do único amor verdadeiro que há, estou farto de conversas, farto de compreensões, farto de conveniências de serviço.

Nunca vi namorados tão embrutecidos, tão cobardes e tão comodistas como os de hoje.
Incapazes de um gesto largo, de correr um risco, de um rasgo de ousadia, são uma raça de telefoneiros e capangas de cantina, malta do "tá tudo bem, tudo bem", tomadores de bicas, alcançadores de compromissos, bananóides, borra-botas, matadores do romance, romanticidas.

Já ninguém se apaixona?
Já ninguém aceita a paixão pura, a saudade sem fim, a tristeza, o desequilíbrio, o medo, o custo, o amor, a doença que é como um cancro a comer-nos o coração e que nos canta no peito ao mesmo tempo?

O amor é uma coisa, a vida é outra. O amor não é para ser uma ajudinha. Não é para ser o alívio, o repouso, o intervalo, a pancadinha nas costas, a pausa que refresca, o pronto-socorro da tortuosa estrada da vida, o nosso "dá lá um jeitinho sentimental".

Odeio esta mania contemporânea por sopas e descanso. Odeio os novos casalinhos. Para onde quer que se olhe, já não se vê romance, gritaria, maluquice, facada, abraços, flores.
O amor fechou a loja. Foi trespassada ao pessoal da pantufa e da serenidade. Amor é amor.
É essa beleza. É esse perigo. O nosso amor não é para nos compreender, não é para nos ajudar, não é para nos fazer felizes. Tanto pode como não pode. Tanto faz. É uma questão de azar.

O nosso amor não é para nos amar, para nos levar de repente ao céu, a tempo ainda de apanhar um bocadinho de inferno aberto.
O amor é uma coisa, a vida é outra. A vida às vezes mata o amor.
A "vidinha" é uma convivência assassina. O amor puro não é um meio, não é um fim, não é um princípio, não é um destino. O amor puro é uma condição. Tem tanto a ver com a vida de cada um como o clima. O amor não se percebe. Não dá para perceber. O amor é um estado de quem se sente. O amor é a nossa alma. É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende. O amor é uma verdade. É por isso que a ilusão é necessária. A ilusão é bonita, não faz mal. Que se invente e minta e sonhe o que quiser. O amor é uma coisa, a vida é outra.

A realidade pode matar, o amor é mais bonito que a vida. A vida que se lixe. Num momento, num olhar, o coração apanha-se para sempre. Ama-se alguém. Por muito longe, por muito difícil, por muito desesperadamente. O coração guarda o que se nos escapa das mãos. E durante o dia e durante a vida, quando não esta lá quem se ama, não é ela que nos
acompanha - é o nosso amor, o amor que se lhe tem. Não é para perceber. É sinal de amor puro não se perceber, amar e não se ter, querer e não guardar a esperança, doer sem ficar magoado, viver sozinho, triste, mas mais acompanhado de quem vive feliz. Não se pode ceder. Não se pode resistir.

A vida é uma coisa, o amor é outra. A vida dura a vida inteira, o amor não.
Só um mundo de amor pode durar a vida inteira. E valê-la também."

Miguel Esteves Cardoso

sábado, fevereiro 03, 2007

Olhemos.

"Olhemos. O corpo que pulsa debilmente, amortalhado no lençol. Eis o que sentimos, a olhar para o corpo silencioso e vulnerável, quase anónimo, ou quando jazemos ao lado do nosso marido depois de termos feito amor e respiramos o calor dos seus sonhos impiedosos e perguntamos a nós mesmas quem ele é, meditamos ternamente na verdade que nunca chegaremos a conhecer, porque esse é o segredo que o sono protege nas suas profundezas neuronais, nos seus estratos, camadas e pregas."

Don DeLillo, em "O Corpo Enquanto Arte"

O mesmo pobre diabo...

"Observou-o. Era o mesmo pobre diabo que se lhe deparara de início, um homem desprovido da mais pequena percepção do efeito que exercia sobre os outros."

Don DeLillo, em "O Corpo Enquanto Arte"

Viver outra vez

"O plano dela era organizar o tempo até conseguir viver outra vez."

Don DeLillo, em "O Corpo Enquanto Arte"

Unir o corpo e o espírito

"Nos primeiros dias depois do regresso, comeu uma amêijoa estragada e passou as horas seguintes a precipitar-se para a casa de banho. Ao menos, porém, isso serviu para ela reaver o corpo. Não há como uma tremenda caganeira, pensou, para unir o corpo e o espírito."

Don DeLillo, em "O Corpo Enquanto Arte"

Dias sempre iguais

"Sentia-se ali como em sua casa e percorria os dias muito depressa, dias com as suas pequenas rotinas entorpecedoras, dias sempre iguais, ritmados e organizados mas com uma estagnação simultânea, descentrados, por vezes vazios aqui e além, dias que se moviam tão lentamente que chegava a a doer."

Don DeLillo, em "O Corpo Enquanto Arte"

Achas isso boa ideia?

"Ela quase retorquiu: Achas isso boa ideia? Mas acabou por se abster. Porque seria um comentário tão desnecessário. Porque seria muito mesquinho dizer uma coisa dessas, de manhã ou em qualquer altura, num dia de intensa claridade, depois de um temporal."

Don DeLillo, em "O Corpo Enquanto Arte"

Às vezes

"Às vezes, não se lembra do que lhe quer dizer até que ele sai da divisão onde se encontram. Nessa altura, lembra-se. E então ou chama por ele ou não e ele volta atrás ou não."

Don DeLillo, em "O Corpo Enquanto Arte"

O tempo parece escoar-se

"O tempo parece escoar-se. O mundo acontece, prolonga-se numa sucessão de momentos e nós detemo-nos a olhar uma aranha espalmada contra a sua teia. (...) Sabemos melhor quem somos num dia de intensa claridade, depois de um temporal, quando o sentimento de si trespassa todas as folhas que caem, mesmo as mais pequenas."


Don DeLillo, em "O Corpo Enquanto Arte"

domingo, janeiro 28, 2007

O Ramalhete (Os Maias)

Fatalismo mulçumano

"Era o fatalismo mulçumano. Nada desejar e nada recear... Não se abandonar a uma esperança - nem a um desapontamento. Tudo aceitar, o que vem e o que foge com a tranquilidade com que se acolhem as naturais mudanças de dias agrestes e de dias suaves. E, nesta placidez, deixar esse pedaço de matéria organizada que se chama o Eu, ir-se deteriorando e decompondo até reentrar e se perder no infinito Universo".

Eça de Queirós, em "Os Maias"

marchando um para o outro

" - Carlinhos da minha alma, é inútil que ninguém ande à procura da "sua mulher". Ela virá. Cada um tem a "sua mulher" e necessariamente tem de a encontrar. (...) estais ambos insensivelmente, irresistivelmente, fatalmente, marchando um para o outro!"

Eça de Queirós, em "Os Maias"

A Gouvarinho

"Está hoje chique a valer a Gouvarinho! E a pedir homem!"


Eça de Queirós, em "Os Maias"

A velhice

"E afastou-se, todo dobrado sobre a bengala, vencido enfim por aquele implacável destino que, depois de o ter ferido na idade da força com a desgraça do filho - o esmagava ao fim da velhice com a desgraça do neto."

Eça de Queirós, em "Os Maias"

domingo, janeiro 21, 2007

Anthem

A propósito do post anterior (alma perdida), acrescento Anthem do musical Chess...

Uma alma perdida

Uma alma perdida, um ser submerso no efémero, no fútil, naquilo que se esvanece ao segundo deixando pendurado um vazio permanente, calcado pela agitação de um quotidiano exigente.

Sandra Bastos
Dezembro 2006

quinta-feira, janeiro 18, 2007

Mário Cesariny


A ti Cesariny!

Mário Cesariny de Vasconcelos
Nasceu em Lisboa em 1923. Este pintor poeta foi, em 1947, co-fundador do Grupo Surrealista de Lisboa, no qual se manteve pouco tempo, formando, mais tarde, o novo grupo 'Os Surrealistas'. As suas obras como pintor estão representadas na Fundação Gulbenkian, e como escritor publicou diversas obras.
Exercício Espiritual
É preciso dizer rosa em vez de dizer ideia
é preciso dizer azul em vez de dizer pantera
é preciso dizer febre em vez de dizer inocência
é preciso dizer o mundo em vez de dizer um homem

É preciso dizer candelabro em vez de dizer arcano
é preciso dizer Para Sempre em vez de dizer Agora
é preciso dizer O Dia em vez de dizer Um Ano
é preciso dizer Maria em vez de dizer aurora

de Manual de Prestidigitação, Assírio e Alvim

quarta-feira, janeiro 17, 2007

António Ramos Rosa


Tributo a António Ramos Rosa

António Ramos Rosa
Nasceu em Faro em 1924 onde passou a sua juventude. Veio para Lisboa e depressa se dedicou completamente às letras. Tem recebido numerosos prémios nacionais e estrangeiros, entre os quais o Prémio Pessoa, em 1988. Para Ramos Rosa, escrever é, sempre, a necessidade de respirar as palavras e de às palavras fornecer o frémito do ser, os pulmões do sonho, e, com elas, criar a dádiva do poeta. Em 2001, o poeta lançou Antologia Poética, com prefácio e selecção de Ana Paula Coutinho Mendes."
Poema dum Funcionário Cansado
A noite trocou-me os sonhos e as mãos
dispersou-me os amigos
tenho o coração confundido e a rua é estreita
estreita em cada passo
as casas engolem-nos
sumimo-nos
estou num quarto só num quarto só
com os sonhos trocados
com toda a vida às avessas a arder num quarto só.
Sou um funcionário apagado
um funcionário triste
a minha alma não acompanha a minha mão
Débito e Crédito Débito e Crédito
a minha alma não dança com os números
tento escondê-la envergonhado
o chefe apanhou-me com o olho lírico na gaiola do quintal em frente
e debitou-me na minha conta de empregado
Sou um funcionário cansado dum dia exemplar
Por que não me sinto orgulhoso de ter cumprido o meu dever?
Por que me sinto irremediavelmente perdido no meu cansaço?
Soletro velhas palavras generosas
Flor rapariga amigo menino
irmão beijo namorada
mãe estrela música
São as palavras cruzadas do meu sonho
palavras soterradas na prisão da minha vida
isto todas as noites do mundo numa só noite comprida
num quarto só.

terça-feira, janeiro 16, 2007

Miguel Torga


Que seria eu sem ti Miguel Torga?!

"O HOMEM é, por desgraça, uma solidão:
Nascemos sós, vivemos sós e morremos sós."
Miguel Torga

Súplica
Agora que o silêncio é um mar sem ondas,
E que nele posso navegar sem rumo,
Não respondas
Às urgentes perguntas
Que te fiz.
Deixa-me ser feliz
Assim,
Já tão longe de ti como de mim.

Perde-se a vida a desejá-la tanto.
Só soubemos sofrer, enquanto
O nosso amor
Durou.
Mas o tempo passou,
Há calmaria...
Não perturbes a paz que me foi dada.
Ouvir de novo a tua voz seria
Matar a sede com água salgada.

segunda-feira, janeiro 15, 2007

Sophia de Mello Breyner Anderson


Tributo a Sophia de Mello Breyner Andresen

Poeta portuguesa - com mais de 80 anos. Considerada por muitos como a maior poeta contemporânea de Portugal; vencedora do prémio Camões de literatura (1999).

Sophia de Mello Breyner Andresen nasceu no Porto em 6 de Novembro de 1919. Foi nessa cidade e na Praia da Granja que passou a sua infância e juventude. Frequentou Filologia Clássica na Universidade de Lisboa, mas não chegou a terminar o curso. Foi casada com o jornalista Francisco Sousa Tavares e mãe de cinco filhos, que a motivaram a escrever contos infantis. Motivos concretos e símbolos excepcionais para cantar o amor e o trágico da vida foi-os buscar ao mar e aos pinhais que contemplou na Praia da Granja; com a sua formação helenística, encontrou evocações do passado para sugerir transformações do futuro; pela sua constante atenção aos problemas do homem e do mundo, criou uma literatura de empenhamento social e político, de compromisso com o seu tempo e de denúncia da injustiça e da opressão. Foi agraciada com o Premio Camões em 1999.

Obras poéticas: Poesia (1944), Dia do Mar (1947), Coral, (1950), No Tempo Dividido, (1954), Mar Novo (1958), Livro Sexto (1962) Geografia (1967), Dual (1972), Nome das Coisas (1977), Musa (1994), etc. Obras narrativas: O Cavaleiro da Dinamarca, Contos Exemplares, Histórias da Terra e do Mar, A Floresta, A Menina do Mar, O Rapaz de Bronze, A Fada Oriana, etc.
O poema do dia:
Hora
Sinto que hoje novamente embarco
Para as grandes aventuras,
Passam no ar palavras obscuras
E o meu desejo canta --- por isso marco
Nos meus sentidos a imagem desta hora.
Sonoro e profundo
Aquele mundo
Que eu sonhara e perdera
Espera
O peso dos meus gestos.
E dormem mil gestos nos meus dedos.
Desligadas dos círculos funestos
Das mentiras alheias,
Finalmente solitárias,
As minhas mãos estão cheias
De expectativa e de segredos
Como os negros arvoredos
Que baloiçam na noite murmurando.
Ao longe por mim oiço chamando
A voz das coisas que eu sei amar.
E de novo caminho para o mar.
Sophia de Mello Breyner Andresen

domingo, janeiro 14, 2007

Grandes Escritores e Poetas Portugueses

A propósito do programa da RTP "Os Grandes Portugueses", lanço o desafio aos nossos visitantes e também a nós mesmas de apontar os Grandes Escritores e Poetas Portugueses... Apenas uma justa homenagem.

sexta-feira, janeiro 12, 2007

Irene Lisboa


Tributo a Irene Lisboa

Irene do Céu Vieira Lisboa
nasceu no Casal da Murzinheira, Arruda dos Vinhos, em 1892. Formou-se pela Escola Normal Primária de Lisboa e fez estudos de especialização pedagógica na Suíça, França e Bélgica. Foi um dos nomes mais importantes da "escrita feminina" portuguesa do século XX. O seu primeiro livro foi 13 Contarelos, ao qual se seguiram dois livros de poesia. A sua obra reparte-se entre a ficção intimista e autobiográfica, a crónica, o conto, a poesia, a pedagogia e a crítica literária. Faleceu em 1958.

Poema do dia:

Escrever
Se eu pudesse havia de... de...
transformar as palavras em clava!
havia de escrever rijamente.
Cada palavra seca, irressonante!
Sem música, como um gesto,
uma pancada brusca e sóbria.
Para quê,
mas para quê todo o artifício
da composição sintáctica e métrica,
este arredondado linguístico?
Gostava de atirar palavras.
Rápidas, secas e bárbaras: pedradas!
Sentidos próprios em tudo.
Amo? Amo ou não amo!
Vejo, admiro, desejo?
Ou não... ou sim.
E, como isto, continuando...

E gostava,
para as infinitamente delicadas coisas do espírito
(quais? mas quais?)
em oposição com a braveza
do jogo da pedrada,
da pontaria às coisas certas e negadas,
gostava...
de escrever com um fio de água!
um fio que nada traçasse...
fino e sem cor... medroso...
Ó infinitamente delicadas coisas do espírito...
Amor que se não tem,
desejo dispersivo,
sofrimento indefinido,
ideia incontornada,
apreços, gostos fugitivos...
Ai, o fio da água,
o próprio fio da água poderia
sobre vós passar, transparentemente...
ou seguir-vos, humilde e tranquilo?

quinta-feira, janeiro 11, 2007

António Gedeão/Rómulo de Carvalho


Tributo a Rómulo de Carvalho


António Gedeão
Nascimento: 1906 Lisboa
Morte:1997

Poeta, professor e historiador da ciência portuguesa. António Gedeão, pseudónimo de Rómulo de Carvalho, concluiu, no Porto, o curso de Ciências Físico-Químicas, exercendo depois a actividade de docente. Teve um papel importante na divulgação de temas científicos, colaborando em revistas da especialidade e organizando obras no campo da história das ciências e das instituições, como A Actividade Pedagógica da Academia das Ciências de Lisboa nos Séculos XVIII e XIX. Publicou ainda outros estudos, como História da Fundação do Colégio Real dos Nobres de Lisboa (1959), O Sentido Científico em Bocage (1965) e Relações entre Portugal e a Rússia no Século XVIII (1979). Revelou-se como poeta apenas em 1956, com a obra Movimento Perpétuo. A esta viriam juntar-se outras obras, como Teatro do Mundo (1958), Máquina de Fogo (1961), Poema para Galileu (1964), Linhas de Força (1967) e ainda Poemas Póstumos (1983) e Novos Poemas Póstumos (1990). Na sua poesia, reunida também em Poesias Completas (1964), as fontes de inspiração são heterogéneas e equilibradas de modo original pelo homem que, com um rigor científico, nos comunica o sofrimento alheio, ou a constatação da solidão humana, muitas vezes com surpreendente ironia. Alguns dos seus textos poéticos foram aproveitados para músicas de intervenção. Em 1963 publicou a peça de teatro RTX 78/24 (1963) e dez anos depois a sua primeira obra de ficção, A Poltrona e Outras Novelas (1973). Na data do seu nonagésimo aniversário, António Gedeão foi alvo de uma homenagem nacional, tendo sido condecorado com a Grã-Cruz da Ordem de Santiago de
Espada.

A minha escolha:

Dez réis de esperança
Se não fosse esta certeza
que nem sei de onde me vem,
não comia, nem bebia,
nem falava com ninguém.
Acocorava-me a um canto,
no mais escuro que houvesse,
punha os joelhos à boca
e viesse o que viesse.
Não fossem os olhos grandes
do ingénuo adolescente,
a chuva das penas brancas
a cair impertinente,
aquele incógnito rosto,
pintado em tons de aguarela,
que sonha no frio encosto
da vidraça da janela,
não fosse a imensa piedade
dos homens que não cresceram,
que ouviram, viram, ouviram,
viram, e não perceberam,
essas máscaras selectas,
antologia do espanto,
flores sem caule,
flutuando no pranto do desencanto,
se não fosse a fome e a sede
dessa humanidade exangue,
roía as unhas e os dedos
até os fazer em sangue.

quarta-feira, janeiro 10, 2007

Florbela Espanca


Tributo a Florbela Espanca

QUANDO TUDO ACONTECEU...

1894: A 8 de Dezembro, nasce Florbela Espanca em Vila Viçosa. - 1915: Casa com Alberto Moutinho. - 1919: Entra na Faculdade de Direito, em Lisboa. - 1919: Primeira obra, Livro de Mágoas. – 1923: Publica o Livro de Soror Saudade. – 1927: A 6 de Junho, morre Apeles, irmão da escritora, causando-lhe desgosto profundo. - 1930: Em Matosinhos, Florbela põe fim à vida. - 1931: Edição póstuma de Charneca em Flor, Reliquiae e Juvenilia e ainda das colectâneas de contos Dominó Negro e Máscara do Destino. Reedições dos dois primeiros livros editados. Verdadeiro começo da sua visibilidade generalizada.

Obra

Da sua obra apenas dois títulos foram publicados em vida:
Livro de Mágoas (1919),
Livro de Sóror Saudade (1923)

Postumamente foram publicadas as obras:

Charneca em Flor (1930),
Cartas de Florbela Espanca, por Guido Battelli (1930),
Juvenília (1930),
As Marcas do Destino (1931, contos),
Cartas de Florbela Espanca, por Azinhal Botelho e José Emídio Amaro (1949)
Diário do Último Ano Seguido De Um Poema Sem Título, com prefácio de Natália Correia (1981).
O livro de contos Dominó Preto ou Dominó Negro, várias vezes anunciado (1931, 1967), seria publicado em 1982.
A aquisição e tratamento (de parte) do espólio por Rui Guedes possibilitou uma nova edição, mais completa e fiável da sua obra.

A minha escolha:

Tarde de mais...

Quando chegaste enfim, para te ver
Abriu-se a noite em mágico luar;
E para o som de teus passos conhecer
Pôs-se o silêncio, em volta, a escutar...

Chegaste, enfim! Milagre de endoidar!
Viu-se nessa hora o que não pode ser:
Em plena noite, a noite iluminar
E as pedras do caminho florescer!

Beijando a areia de oiro dos desertos
Procurara-te em vão! Braços abertos,
Pés nus, olhos a rir, a boca em flor!

E há cem anos que eu era nova e linda!...
E a minha boca morta grita ainda:
Porque chegaste tarde, ó meu Amor?!...

Florbela Espanca

domingo, janeiro 07, 2007

Moulin Rouge

A Vida é Bela

O Fantasma da Ópera (Christine & Raoul)

As mais belas histórias de amor...

Sendo o amor o bem mais precisoso que levamos desta vida, escolhi as minhas cenas preferidas de grandes histórias de amor...

terça-feira, janeiro 02, 2007

em ti...

Esta música mais do que pensar em ti faz-me sentir. Não sei o quê, como, onde, quando nem porquê... Apenas sinto... por ti.

domingo, dezembro 17, 2006

Libertango

A liberdade... o som e as imagens dizem tudo...

O aniquilar do sonho...

Procurei-te a vida toda. Mesmo em criança já sonhava contigo e desejava ardentemente o dia em que me vinhas salvar montado no teu cavalo branco. Em tantos rostos parecia reconhecer-te mas enganava-me sempre.

Tu nunca apareceste. Senti-me tentada a desistir mas achava que era o único sonho que me mantinha presa à vida ainda que o fio fosse frágil. Pensei nas razões que te mantinham distante. Pensei até gritar de desespero. Nada me convencia de que não passavas de uma farsa, de uma ilusão.

Nem imaginas o que me custa apagar-te dos meus sonhos simplesmente porque não existes. Porque mesmo ausente me fizeste perder a cabeça e me esvaziaste o coração. Recordo as palavras ingénuas, os delírios, os pressentimentos e o que traziam: mágoas, decepções, tristezas. Palavras gastas pela crença no herói romântico que me ia amar sem limite e eu retribuía da mesma forma.

As quedas, a evidência da tua inexistência foram-me desgastando. Nada valeria para mim sem ti, tudo seria insignificante sem o teu amor eterno. Não é que agora acredite que há algo mais valioso do que o amor. Simplesmente não acredito da mesma forma ou da forma que gostaria… Mas é irreal.

Não posso viver mergulhada numa crença, num mito que me magoa constantemente. Tenho de viver a realidade, neste mundo, da maneira como ela se me apresenta. Não posso olhar para um homem e ver nele a tua alma, quando é apenas um homem igual a tantos outros, com virtudes e defeitos.

Não obstante, grito por ti, sangra-me o coração por não existires, fico arrasada por te abandonar nesta espera sempre em desespero. Mesmo na realidade onde não estás reclamo por não apareceres. Mesmo mudando o rumo dos meus passos, olho para trás à tua procura, vou devagar, paro na esperança de me chamares e eu correr para os teus braços. Mas tu não me ouves ou não estás lá.

O mínimo ruído alimenta a minha esperança. Volto a olhar, mas nada. Como dói não me teres encontrado. Como dói não te ter conhecido apesar de jurar conhecer-te desde sempre e reconhecer-te no primeiro olhar. Chamam-me mas do outro lado. Não tenho alternativa, mas ninguém me obriga a ir por este caminho, fui eu que o escolhi.

Encontro o meu carro. Finjo não encontrar a chave. Mas ela aparece logo. Deixo a porta aberta à espera que corras e me impeças de partir. Continua a não se passar nada para além do meu desespero gritante escondido por um sorriso de nostalgia. Entro e fecho a porta. Não vieste. Uma última oportunidade. Ligo a chave e arranco. Sempre em frente.

Ainda passo por ti e reparo que me vês mas nada fazes. És um príncipe muito frouxo. Nem te aceno na despedida. Carrego no acelerador. Não fizeste um gesto para me impedires de partir. Pensas que volto. Enganas-te. O ponteiro da velocidade mais elevado. Não voltarei para te vir buscar.

Gosto da estrada. Sou livre. A velocidade satisfaz-me. No meu corpo indiferente ao novo ambiente bate um coração desfeito, a explodir...

A revolta de te perder antes de te encontrar. A dor de te deixar sem te dar o amor. Assim se foi a historinha do príncipe encantado e da gata borralheira. Sem príncipes. Assim serei eu feliz. Assim esmaguei com raiva o teu retrato, rasguei as tuas fotos, destruí os teus objectos e queimei as tuas roupas. Assim dilacerei a tua alma, parti aos bocadinhos o teu coração de porcelana e enfiei-o no contentor da reciclagem. Assim arranquei do meu cérebro as tuas filosofias e ideais. Assim aspirei os meus sentimentos e deixei o meu coração vazio.

Sandra Bastos
Novembro 2006

El Tango de Roxanne (Moulin Rouge)

Eis o Tango que me vai na alma...


terça-feira, dezembro 12, 2006

Será que ele me ama? Será que ela me ama?

Antigamente, a terra estava povoada de pequenos seres esféricos representando três categorias de humanos, todos duplos, dotados de quatro braços, outras tantas pernas e de uma única cabeça com duas caras, a feminina, nascida da Terra, a masculina, nascida do Sol, e o andrógino, homem e mulher ao mesmo tempo, nascido da Lua. Um dia, rolando sobre si mesmos em turbilhão, escalaram até aos céus para atacar os deuses.
Irritado, Zeus fendeu-os em dois.
Foi depois desses tempos que cada um começou a procurar o seu duplo. As duas metades perdidas do nosso corpo.

Pierre Rey, O Desejo (p. 49)

segunda-feira, dezembro 04, 2006

El Son Hay Que Llevarlo En El Corazon
Mi Musica Es Tu Musica

domingo, dezembro 03, 2006

Novo blogue: "sugar o tutano da vida"

Criei um (novo) blogue mais direccionado para as questões da sociedade, para a forma, por vezes irónica, como as pessoas "sugam o tutano da vida".

Convido-vos a visitá-lo e a comentar o conteúdo do mesmo. Um espaço aberto à discussão de ideias e situações que marcam o quotidiano e a nossa civilização.

http://sandrabastos.blogspot.com/

Um vulto negro...

O sonho desfaz-se no primeiro contacto com a realidade. A ilusão que tapa os olhos cai num ápice e parece que ficamos a ver enevoado.

Um vulto negro que se move na escuridão de uma tarde quente de Inverno. Continuo a caminhar. Paro. Porquê? Vi mesmo alguma coisa de interessante? Eis a questão e a minha contínua mania de me vingar nas palavras.

Salva-me o toque do telemóvel. Quebra-Nozes. Valsa das Flores. Para onde vou afinal? Sigo o som da música ou o ritmo das minhas palavras? O discurso flúi naturalmente. Hesito sem parar de me movimentar. Os passos vão sempre para a frente. Posso parar mas jamais voltar atrás.

Chega o momento de reconhecer que nada aconteceu que valesse um grande esforço, um coração despedaçado. Quando na escuridão os nossos olhares cruzam-se à distância e afinal…

Sandra Bastos

quinta-feira, novembro 30, 2006

Entramos num mundo com um grito;
deixamo-lo com um suspiro.
Entre esses dois momentos extremos,
a palavra parece ser o princípio e o fim da nossa vida.
(...) Pela palavra amamos, pela palavra odiamos.
Pela palavra abençoamos e condenamos.
Pela palavra prometemos
e nos comprometemos.
Pela palavra justificamos e mentimos.
Receamos e encorajamos.
Insinuamos e ofendemos.
Desculpamos e perdoamos.
Pela palavra construimos.
Pela palavra nos emocionamos,
pela palavra nos encontramos
e nos desencontramos.
Pela palavra matamos,
pela palavra vivemos.
Gomes (1993)

quarta-feira, novembro 29, 2006

Segue o teu destino

Segue o teu destino

Segue o teu destino,
Rega as tuas plantas,
Ama as tuas rosas.
O resto é a sombra
De árvores alheias.

A realidade
Sempre é mais ou menos
Do que nós queremos.
Só nós somos sempre
Iguais a nós-próprios.

Suave é viver só.
Grande e nobre é sempre
Viver simplesmente.
Deixa a dor nas aras
Como ex-voto aos deuses.

Vê de longe a vida.
Nunca a interrogues.
Ela nada pode
Dizer-te. A resposta
Está além dos deuses.

Mas serenamente
Imita o Olimpo
No teu coração.
Os deuses são deuses
Porque não se pensam.


Ricardo Reis

quarta-feira, novembro 22, 2006

Já não me importo

Já não me importo

Já não me importo
Até com o que amo ou creio amar.
Sou um navio que chegou a um porto
E cujo movimento é ali estar.

Nada me resta
Do que quis ou achei.
Cheguei da festa
Como fui para lá ou ainda irei

Indiferente
A quem sou ou suponho que mal sou,

Fito a gente
Que me rodeia e sempre rodeou,

Com um olhar
Que, sem o poder ver,
Sei que é sem ar
De olhar a valer.

E só me não cansa
O que a brisa me traz
De súbita mudança
No que nada me faz.

Fernando Pessoa

sábado, novembro 18, 2006

O passado e o presente murcham...

"O passado e o presente murcham... Já os enchi e esvaziei,
E vou encher a minha prega futura.

Ei, tu que me ouves aí em cima! Que tens a dizer-me?
Olha-me no rosto enquanto respiro a tarde,
(Fala com franqueza, mais ninguém te ouve, e eu só fico mais um minuto).

Contradigo-me?
Muito bem, então contradigo-me,
(Sou imenso, contenho multidões).

Dirijo-me aos que estão perto, espero no umbral.

Quem fez o trabalho do dia? Quem acabará primeiro a sua ceia?
Quem quer passear comigo?

Falarás antes de me ir embora? Tirarás a prova demasiado tarde?"

Walt Whitman

Vivas pelos vencidos!

"Com a estrondosa música venho, com as minhas cornetas e tambores,
Não só toco marchas para os vencedores aclamados, também as toco para os
conquistados e abatidos.

Ouviste dizer que foi bom vencer?
Também te digo que é bom perder, as batalhas perdem-se com o mesmo
espírito com que se ganham.

Toco e volto a tocar pelos mortos,
Sopro por eles a minha mais alta e alegre melodia.

Vivas pelos vencidos!
E por aqueles cujos vasos de guerra se afundaram no mar!
E pelos náufragos também!
E por todos os generais que perderam e por todos os vencidos heróis!
E pelos inumeráveis heróis desconhecidos iguais aos maiores heróis
conhecidos!"

Walt Whitman

terça-feira, novembro 14, 2006

Dádiva

Dois homens, ambos gravemente doentes, estavam no mesmo quarto de hospital.Um deles podia sentar-se na sua cama durante uma hora, todas as tardes, para que os fluidos circulassem nos seus pulmões. A sua cama estava junto da única janela do quarto. O outro homem tinha de ficar sempre deitado de costas.
Os homens conversavam horas a fio. Falavam das suas mulheres, famílias, das suas casas, dos seus empregos, dos seus aeromodelos, onde tinham passado as férias...
E todas as tardes, quando o homem da cama perto da janela se sentava, passava o tempo a descrever ao seu companheiro de quarto todas as coisas que conseguia ver do lado de fora da janela. O homem da cama do lado começou a viver à espera desses períodos de uma hora, em que o seu mundo era alargado e animado por toda a actividade e cor do mundo do lado de fora da janela.
A janela dava para um parque com um lindo lago. Patos e cisnes, chapinhavam na água enquanto as crianças brincavam com os seus barquinhos. Jovens namorados caminhavam de braços dados por entre as flores de todas as cores do arco-íris. Árvores velhas e enormes acariciavam a paisagem e uma tênue vista da silhueta da cidade podia ser vislumbrada no horizonte. Enquanto o homem da cama perto da janela descrevia isto tudo com extraordinário pormenor, o homem no outro lado do quarto fechava os seus olhos e imaginava as pitorescas cenas.
Um dia, o homem perto da janela descreveu um desfile que ia apassar:Embora o outro homem não conseguisse ouvir a banda, conseguia vê-la e ouvi-la na sua mente, enquanto o outro senhor a retratava através de palavras bastante descritivas.
Dias e semanas passaram. Uma manhã, a enfermeira chegou ao quarto trazendo água para os seus banhos, e encontrou o corpo sem vida do homem perto da janela, que tinha falecido calmamente enquanto dormia.
Ela ficou muito triste e chamou os funcionários do hospital para que levassem o corpo. Logo que lhe pareceu apropriado, o outro homem perguntou se podia ser colocado na cama perto da janela. A enfermeira disse logo que sim e fez a troca. Depois de se certificar de que o homem estava bem instalado, a enfermeira deixou o quarto.
Lentamente, e cheio de dores, o homem ergueu-se, apoiado no cotovelo, para contemplar o mundo lá fora. Fez um grande esforço e lentamente olhou para o lado de fora da janela que dava, afinal, para uma parede de tijolo!
O homem perguntou à enfermeira o que teria feito com que o seu falecido companheiro de quarto lhe tivesse descrito coisas tão maravilhosas do lado de fora da janela. A enfermeira respondeu que o homem era cego e nem sequer conseguia ver a parede. Talvez quisesse apenas dar-lhe coragem...

Moral da História: Há uma felicidade tremenda em fazer os outros felizes, apesar dos nossos próprios problemas. A dor partilhada é metade da tristeza, mas a felicidade, quando partilhada, é dobrada.
Se te queres sentir rico, conta todas as coisas que tens que o dinheiro não pode comprar. O dia de hoje é uma dádiva, por isso é que o chamam de presente!

autor desconhecido

quinta-feira, novembro 09, 2006

SOS CRIANÇA

O meu nome é ""Sara""
Tenho 3 anos
Os meus olhos estão inchados,
Não consigo ver.

Eu devo ser estúpida,
Eu devo ser má,
O que mais poderia pôr o meu pai em tal estado?

Eu gostaria de ser melhor,
Gostaria de ser menos feia.
Então, talvez a minha mãe me viesse sempre dar miminhos.

Eu não posso falar,
Eu não posso fazer asneiras,
Senão fico trancada todo o dia.

Quando eu acordo estou sozinha,
A casa está escura,
Os meus pais não estão em casa.

Quando a minha mãe chega,
Eu tento ser amável,
Senão eu talvez levaria
Uma chicotada à noite.

Não faças barulho!
Acabo de ouvir um carro,
O meu pai chega do bar do Carlos.

Ouço-o dizer palavrões.
Ele chama-me..
Eu aperto-me contra o muro.

Tento-me esconder dos seus olhos demoníacos.
Tenho tanto medo agora,
Começo a chorar.

Ele encontra-me a chorar,
Ele atira-me com palavras más,
Ele diz que a culpa é minha, que ele sofra no trabalho.

Ele esbofeteia-me e bate-me,
E berra comigo ainda mais,
Eu liberto-me finalmente e corro até à porta.

Ele já a trancou.
Eu enrolo-me toda em bola,
Ele agarra em mim e lança-me contra o muro.

Eu caio no chão com os meus ossos quase partidos,
E o meu dia continua com horríveis
palavras...

"Eu lamento muito!", eu grito
Mas já é demasiado tarde
O seu rosto tornou-se num ódio inimaginável.

O mal e as feridas mais e mais,
"Meu Deus por favor, tenha piedade!
Faz com que isto acabe por favor!"

E finalmente ele pára, e vai para a porta,
Enquanto eu fico deitada,
Imóvel no chão.

O meu nome é "Sara"
Tenho 3 anos,
Esta noite o meu pai *matou-me*.

Existem milhões de crianças que assim como a "Sara" são mortos. E tu podes ajudá-los. E se porque tu ficaste sensibilizado(a), faz qualquer coisa!! Faz passar este poema porque mesmo se isto parece doido pode talvez mudar indirectamente as nossas vidas. Nunca se sabe.

(autor desconhecido)

quarta-feira, novembro 08, 2006

O milagre


O milagre! Quantos já ocorreram na minha vida! E outros que ficaram por se realizar...

O pior já passou e ainda está para vir. O melhor já passou e ainda está para vir. É assim a vida!

A fragilidade que se manifesta nos maus momentos, deixamo-nos cair quando a queda é maior ou caímos numa armadilha. Quebras de energia próprias do desgaste do choque. Mais tarde ou mais cedo, alguém nos ajuda a tratar das feridas e o tempo e os curativos acabam por secá-la, deixando "apenas" uma cicatriz que não nos impedirá de continuar a caminhar.

Reconstruir a casa destruída pela tempestade. Fazer obras, aplicar investimentos. E tudo parece novo e diferente!Igual nunca será!

Pensar em tudo, até no pormenor mais insignificante.

Buscar o infinito como um destino inevitável...


Sandra Bastos

Frases feitas

Mais do que dizer a palavra mágica é preciso senti-la!

Mais do que o corpo é o espírito que nos completa e eterniza!

Não sei amar de outra forma...

Até quando?

As imagens que me perseguem ou palavras que me sufocam por não conseguirem soltar-se. A respiração ansiosa... Algo que não sai, fica entalado na garganta.

Muito trabalho, falta de tempo... até quando?

Quero soltar as amarras, deixar sair tudo o que me oprime. Procurar o infinito com a certeza de que nunca o vou encontrar mas ficarei cada vez mais longe daquilo que me limita.

Sandra Bastos

De regresso...

Após mais de um mês afastada do blogue por motivos de trabalho, estou de regresso...

Não escreverei com a frequência desejada mas vou tentar ser mais constante.

Para trás ficou um mês recheado de intensas experiências a nível profissional.

Até já...

terça-feira, outubro 17, 2006

Sítio a divulgar: www.dominiopublico.gov.br

Caros amigos:
Convoco todos a lutarem para impedirmos um desastre!...
Imaginem um lugar onde se pode ler, gratuitamente, as obras de Machado de Assis, ou A Divina Comédia, ou ter acesso às histórias infantis de todos os tempos. Um lugar onde lhe mostrassem as grandes pinturas de Leonardo DaVinci, entre outros grandes Mestres. Em suma tudo relacionado com as Artes e Ciências da Educação. Onde vocês pudessem escutar músicas em MP3 de alta qualidade. Pois esse lugar existe!!!! O Ministério da Educação Brasileiro disponibiliza tudo isso, basta aceder ao site: www.dominiopublico.gov.br Só de literatura portuguesa há 732 obras! Estamos em vias de perder tudo, pois vão desactivar o projecto por desuso, já que o número de acesso é muito pequeno. Vamos tentar reverter esta desgraça, divulgando e incentivando amigos, parentes e conhecidos, a utilizarem essa fantástica ferramenta de propagar a cultura e do gosto pela leitura/conhecimento.

António Alfredo Monteiro

quarta-feira, outubro 04, 2006

Devaneio

A imagem de sempre: o mundo devastado pela guerra.

Da miséria surge um rosto taciturno... olha-me, estende-me a mão como se fosse a única salvação.

Regressou para me levar. Liberta-me. Deixar a calamidade rumo a um lugar seguro.

Caminhamos juntos, sem largar a mão... não sei nada, apenas o amor.

terça-feira, outubro 03, 2006

Alguém que nos compreende

Nada nesta vida acontece por acaso... mas foi o acaso que traçou o retrato do meu presente ... anos antes de eu ter nascido.
Encontrei-me numa leitura, sem imaginar que me procurava.
Felizmente, nesta vida nunca perdemos a esperança de nos surpreendermos!
Partilho convosco parte do meu achado, a outra parte espera-vos durante a leitura e aí eu já não serei nada... entramos no mundo da poesia e de nós próprios.

"Aqui, diante de mim,
Eu, pecador, me confesso
De ser assim como sou.
Me confesso o bom e o mau
Que vão em leme da nau
Nesta deriva em que vou.

Me confesso
Possesso
Das virtudes teologais,
Que são três,
E dos pecados mortais
Que são sete,
Quando a terra não repete
Que são mais.

Me confesso
O dono das minhas horas.
O das facadas cegas e raivosas
E das ternuras lúcidas e mansas.
E de ser de qualquer modo
Andanças
Do mesmo todo.

Me confesso de ser charco
E luar de charco, à mistura.
De ser a corda do arco
Que atira setas acima
E abaixo da minha altura.

Me confesso de ser tudo
Que possa nascer em mim.
De ter raízes no chão
Desta minha condição.
Me confesso de Abel e de Caim.

Me confesso de ser Homem.
De ser o anjo caído
Do tal céu que Deus governa;
De ser o monstro saído
Do buraco mais fundo da caverna.

Me confesso de ser eu.
Eu, tal e qual como vim
Para dizer que sou eu
Aqui, diante de mim!"

Miguel Torga
Livro de Horas

segunda-feira, outubro 02, 2006

Workshop de Gestão

A semana passada fui obrigada a estar presente num workshop, na Escola de Economia e Gestão da Universidade do Minho, intitulado “O Choque Tecnológico na Perspectiva da Gestão de Recursos Humanos”. Apesar de só ter estado lá algumas horas, aprendi algumas coisas. Pegando nas minhas notas…

A directora de Recursos Humanos da Microsoft Portugal, Paula Carneiro, falou no desafio da inclusão digital e na qualificação dos recursos humanos. “Quem não acede às tecnologias de informação fica excluído da sociedade”. Enquanto que nos séculos XIX e XX a alfabetização era fundamental, neste século passam a ser indispensáveis as competências em tecnologias da informação.

Augusto Lima apresentou o programa TII – Tecnologia, Inovação e Iniciativa que tem como objectivos reintegrar os desempregados do sector têxtil e evitar situações de exclusão (hoje as pessoas iletradas são aquelas que não dominam a tecnologia) através de acções de formação.

Para quem ainda não sabe o sector têxtil está numa situação muito complicada, nomeadamente na região do Vale do Ave, no norte do país, onde residem 50% dos desempregados deste sector. A maioria são mulheres e pessoas com mais de 45 anos com habilitações equivalentes ao primeiro ciclo. A solução passaria pela adaptação das empresas à evolução do consumidor, ou seja, um novo desafio para a indústria.

“Para a mudança tem de haver confiança na gestão para que os objectivos sejam atingidos”.


Nota: não desvalorizando as questões importantes que se debatem neste tipo de eventos e a quantidade de novos conhecimentos que adquirimos, o que eu mais gosto nestas experiências são aquelas pastinhas muito bonitas (normalmente oferecidas pelos bancos patrocinadores) que trazem um caneta, umas folhinhas em branco e claro, o diploma que, se me lembrar, devo levantar um dia…

quinta-feira, setembro 28, 2006

Crítica Literária: Os Seis

"Ao ler Os Seis e fazendo já uma “leitura nas entrelinhas” é inevitável não questionar o valor da amizade e dos verdadeiros amigos – aqueles que resistem e conseguem aceitar-nos mesmo quando não tomamos as decisões mais acertadas, mesmo quando não damos notícias, estamos longe, … aqueles que resistem a tudo e de quem nos lembramos a propósito de tudo e de nada, aqueles que nos marcam com sorrisos e com lágrimas. (...)

Por tudo isto, no teu romance, a simplicidade de estilo não coincide de forma alguma com um enredo ligeiro. Mesmo o leitor mais desatento não tem dificuldade em identificar o existencialismo e a reflexão sobre a fragilidade humana que está presente nas tuas obras, não sendo Os Seis excepção.

O recurso a frases curtas, o discurso suspenso, o aparente excesso de pontuação ao invés de aparentar fragmentação ou incoerência, estimula a pausa, convida à reflexão e implica o leitor no que lê. Leva-o à leitura subentendida, à vivência dos factos.

As seis personagens da obra aparentemente muito semelhantes (na idade, na experiência, no meio), acabam por ser muito mais que um estereótipo e permitir ao leitor ver em cada uma delas traços de si próprio ou do adolescente que foi.

Os factos narrados, o relacionamento entre as personagens, as condicionantes quer da aproximação quer do afastamento, o desmembramento do grupo, a amizade real ou aparente, os triângulos amorosos, a valorização da beleza física, as aparências, o divórcio são temas muito actuais que conferem muita importância ao romance e o tornam verosímil. Deste modo, elogio muito a realidade maior, que pelo estilo, pelo suspense, pelas interrogações retóricas, (etc) desperta no leitor o oculto e lhe abre os horizontes. Sou adepta de leituras profundas que me obriguem a pensar, a reviver factos passados, me inquietem e a tua obra, apesar de achar que podia ser mais desenvolvida, permite o envolvimento necessário e obriga à reflexão.

Quando digo que a tua obra podia ser mais desenvolvida, refiro-me sobretudo ao facto de teres criado um enredo rico e dotado as tuas personagens de muita vida própria para depois apresentares o rumo dos factos de uma forma demasiado simplista e cortares, de certa forma, o raciocínio ao leitor.

Deixo-te aqui um desafio, um apelo, incentivo… o que lhe quiseres chamar! Não tenhas receio de escrever obras mais volumosas… N’ Os Seis criaste um enredo que te permite escrever, escrever e escrever… e tu és capaz disso… Acabei de ler a obra e fiquei com vontade de ler mais… continuar a lê-la. É uma crítica positiva… significa que estás no bom caminho, que os teus escritos são muito superiores a muita literatura que inunda as nossas livrarias e que deves ousar escrever obras mais densas.

Enumero agora alguns aspectos menores:
Não percebo o motivo de realçares muito a beleza física das tuas personagens femininas, se bem que são aspectos muito valorizados pelos adolescentes (daí a tua opção se calhar).

Recorreste por vezes ao calão e a uma linguagem mais popular que a meu ver não se identifica muito com a tua escrita. Refiro alguns exemplos: “merda”; “enfardava”; “seu filho da puta”; “caralhos”; “que se fodesse” (esta última atribuída ao Rui, uma personagem com uma conduta exemplar.

Para terminar, dou-te os parabéns pelo teu trabalho.
Continua que os bons leitores agradecem."

Esperança Martins

Crítica Literária aOs Seis

A minha amiga Esperança, também colaboradora assídua deste blogue, teve o cuidado de ler atentamente o meu livro e fez-lhe a respectiva crítica literária.

Tenho a agradecer-lhe o muito trabalho e tempo que dispensou com as minhas palavras. Muito obrigada!

Vou publicar parte do texto que ela me enviou...

A Esperança é licenciada em Português, Latim e Grego (se não estou em erro), e actualmente está a fazer um doutoramente na Universidade de Aveiro.

segunda-feira, setembro 25, 2006

A praxe, o ensino superior, o mercado de trabalho

Enquanto que na UM sou bombardeada pelos gritos da praxe, tropeço nas capas negras dos doutores do 3ºano (quem diria...), e claro, nos coitados dos caloiros metidos em cenas tristemente divertidas, penso no panorama nacional do ensino superior.

Segundo o Portal do Governo, o número de candidatos ao ensino superior público aumentou 4% em relação ao ano passado. Foram colocados na primeira fase 86%, ou seja, 34860 estudantes. Para a segunda fase estão ainda disponíveis 11687 vagas.

Paralelamente o ensino superior privado tem vindo a perder, desde 1996, 30 mil alunos, sendo cerca de 15 mil só nos últimos dois anos.

Apesar de aparentemente o acesso ao ensino superior estar mais facilitado, a sua sobrevivência passa por maiores dificuldades: "o anúncio é que haverá um corte de 6,2 por cento no orçamento de funcionamento em termos nominais. Este valor pode corresponder, em termos reais, a um corte de oito a dez por cento". (Público) As consequências vão ser sentidas por professores e alunos. Os despedimentos tendem a crescer no ensino superior público, "onde há uma grande percentagem de docentes com contratos a prazo". Quanto aos alunos, é provável que tenham de pagar propinas ainda mais altas para "colmatar o orçamento previsto para cada instituição".

Mas o que me chamou a atenção quando vi o movimento da praxe nem foi tanto a crise que ameaça as universidades e politécnicos, mas antes a crise do mercado de trabalho. Fico com a ideia de que andamos todos enganados. Entramos felizes para a universidade, fazemos o curso com todo o entusiasmo (não é o meu caso, infelizmente) e depois, quando saímos, percebemos que não há nada do que nos prometeram a vida inteira, não há a realização profissional, o emprego para o qual estudamos... uma ilusão alimentada pelo ambiente que nos rodeia que se desfaz logo na procura de trabalho.

domingo, setembro 24, 2006

A propósito do casamento...

Acabei de ler "Casamento sem alianças" no blogue do fotojornalista Luiz Carvalho.

"Cada um traz consigo as alianças perdidas que acabam sempre por aparecer, nem que seja para fazer de símbolos um sentido que a vida muitas vezes não traz."

Vejam em Instante Fatal

Florinda

(...) Florinda era a típica mulher quase fatal. (...)

Florinda fora prendada com um rosto bonito, onde reluziam os olhos azuis mas faltava o cabelo loiro. Tal carência depressa passou a um desespero que se transformou numa angústica insuportável que martelava dia e noite na cabeça ou no espelho da beldade.

Um dia, uma ideia despertou no seu cérebro, festejada à exaustão durante uma semana, e, após conseguir, com algum esforço, outra ideia para pôr a primeira em prática, Florinda lá apareceu com o cabelo pintado de amarelo.




Uma tentativa minha, naturalmente frustrada (esqueci-me de um grande pormenor), de criar a personagem Florinda

Harriet



"(...) e, além disso, era esperar demasiado, mesmo de Harriet, que ela pudesse amar mais de três homens por ano."

Jane Austen, em "Ema"

Declaração de Mr. Knightley


"- Não sei fazer discursos, Ema (...) Se a amasse menos talvez pudesse dizer mais coisas. Mas a Ema sabe como sou. De mim não ouvirá senão a verdade. Censurei-a e repreendi-a, e a Ema suportou tudo isso como mais nenhuma mulher em Inglaterra o teria suportado. Perdoe as verdades que agora lhe digo, querida Ema, como tem perdoado outras. O modo como são ditas talvez pouco as recomende. Deus sabe que tenho sido um apaixonado bem pouco atencioso. Mas compreenda-me... Sim, bem vê, deve compreender os meus sentimentos... e retribuí-los-á se puder. Por enquanto, só peço que me deixe ouvir a sua voz, uma vez que seja."

Jane Austen, em "Ema"

Pobre Mr. Elton

"Ema, então, considerando a delicada posição do pobre Mr. Elton, que se encontrava, simultaneamente, na presença da mulher com quem acabava de casar, da mulher com quem pretendera casar e da mulher com quem haviam pretendido casá-lo, compreendou, no seu foro íntimo, que devia ter-lhe concedido o direito de se mostrar tão desastrado e comprometido como realmente era de esperar."

Jan Austen, em "Ema"

O resto do jantar

"Serviu-se a sobremesa, entraram as crianças, que foram admiradas e animadas no meio do habitual estilo de conversação, disseram-se algumas coisas com acerto, disseram-se outras sem acerto algum, mas em proporção muito aproximada umas das outras - nada mais do que observações da vida corrente, lugares-comuns, notícias já velhas e gracejos pesados."

Jane Austen, em "Ema"

Desabafo de Ema



"- Não quero senão bem a Jane Fairfax, mas estou mortalmente enjoada dela."

Jane Austen, in Ema

"Redução de custos" no Público

Para minha infelicidade e da humanidade em geral, o Público está empenhado em "reduzir os custos fixos em 15 por cento", no âmbito de uma “política de renovação e reestruturação” em curso no jornal. O plano de redução de custos passa, naturalmente, por “uma redução negociada do quadro de pessoal, a qual já permitiu rescindir contratos com cinco por cento do total de trabalhadores existentes no final de 2005”.

A empresa do Público justifica esta decisão com os fracos resultados negativos que "têm vindo a afectar a imprensa diária” (perda de circulação e quebra nas receitas publicitárias).

Segundo o JN, estima-se que esta medida vai afectar "cerca de 30 pessoas. Pelo menos no Porto a proposta foi feita a oito jornalistas. A delegação de Coimbra ficará reduzida a uma redactora. O corpo editorial é constituído, neste momento, por 140 profissionais."

sábado, setembro 23, 2006

Edição Crítica de Fernando Pessoa


A propósito de Fernando Pessoa, a Imprensa Nacional-Casa da Moeda editou o sétimo volume da Edição Crítica de Fernando Pessoa, com o título editorial: Escritos sobre Génio e Loucura.

Quase todo o material era inédito, daí a sua importância. As investigações foram feitas pelo colombiano Jeronimo Pizarro, entrevistado pelo Expresso na edição desta semana.

"A importância do tema da loucura em Fernando Pessoa foi reconhecida por diversos estudiosos da obra do poeta e motivou alguns breves ensaios. Numa relação directa com o tema, surge quase sempre como necessária a questão da heteronímia." Pessoa terá partido do princípio de que "o génio está do lado da anormalidade - da anormalidade social, na medida em que é um inadaptado, e da anormalidade psíquica, na medida em que tem origem no ciclo bipolar da exaltação e da depressão." (Expresso)

Reabertura do Teatro Circo de Braga



É com grande felicidade que informo os que ainda não sabem que o Teatro Circo de Braga vai reabrir em breve, após muitos anos de obras.

Assim, no dia 27 de Outubro, os convidados da autarquia e, provavelmente, o primeiro-ministro e a ministra da Cultura, poderão ouvir a Orquestra Sinfónica Nacional Checa, num teatro a sério com 15 pisos! Os pormenores do edifício e dos montantes envolventes podem ser consultados no Google Notícias de Portugal.

"Tirando o concerto de abertura, não vai haver borlas para ninguém. Até eu, se quiser assistir a um espectáculo, terei que pagar bilhete", disse Mesquita Machado, presidente da Câmara de Braga, ao JN, acrescentando que esta será "a segunda maior obra de Braga. Se calhar, de toda a sua história, incluindo a época romana".

O Teatro Circo vai ter uma agenda cultural própria e uma programação dedicada a determinados países. O Brasil é o primeiro contemplado. A agenda completa até ao final do ano em Programação do Teatro Circo.

Carta de Despedida

Há mais de um mês que adio estas palavras e há algumas semanas que hesito em escrevê-las apesar de saber que são inevitáveis. Não é por fugir da realidade mas por achar que talvez não fossem necessárias. Hoje tornou-se impossível fechá-las em mim.

Só guardo boas recordações tuas. Uma amizade talvez para toda a vida. Momentos fantásticos, onde partilhamos emoções, ideias, conhecimentos, sentimentos, dúvidas… Caminhei perto de ti tanto tempo que me custa imaginar-te longe dos meus passos. Falo e falarei de ti como amigo. Porque isso sempre foi o mais importante para além de qualquer ilusão, de qualquer desejo de intensificar algum sentimento mais especial. Tenho a tua amizade, que guardarei comigo como um bem precioso, esteja onde estiver.

Como não tenho nada de novo para te dizer além de que esta é a última vez que te escrevo, que o meu sentimento se esgotou, sem que alguma coisa o aniquilasse, apareceu de repente e quase da mesma forma desapareceu, sem saber muito bem como, tão naturalmente como o envelhecimento dos seres vivos.

Em tua homenagem revejo o que escrevi, talvez o que senti ou julguei, por breves instantes, sentir. A expressividade do teu rosto que hoje nada mais me lembra do que um semblante talvez simpático. Terás um olhar sedutor mas não mais para mim. Certamente continuarás a atrair muitos corações ou apenas instintos femininos! Continuo a achar que tens uma personalidade forte, que és muito seguro e confiante mas confesso que não tanto como imaginava. Talvez achasse que não tinhas pontos mais frágeis, mas tens, como toda a gente. És muito virtuoso, mas há tantos artistas de nível igual ou mesmo superior. Mesmo que não transpirasses tanto talento, continuavas a ser especial. Reparei também que por vezes o teu cérebro se deixa dominar pelo coração. És humano, felizmente!

Nunca cheguei a saber se conhecias o Nocturno do Sonho de Uma Noite de Verão. Estar contigo foi o meu sonho em muitas noites deste Verão, que termina nesta madrugada. Chamei por ti mas não me ouviste. Não consegui ouvir a tua música fundida na orquestra da sociedade. Sabia que estavas lá mas não distinguia o teu som entre tantos. Pois claro, o nome do instrumento… Seria mais um violino entre tantos os outros? A delicadeza de uma harpa? Ferrinhos? Viola? Ok, nem se ouve na orquestra, coitadinho!

Comecei a falar de ti às três da madrugada e acabo quase à mesma hora! Mas desta vez já não me perco a falar de ti. Muito menos a esperar e a procurar-te na paisagem da multidão.
Já não estás aí porque perdeste a paciência para me ouvires. De facto perdi muitas horas mergulhada na complexidade no teu ser. Valeu a pena, fiz muitos progressos na minha capacidade de análise! Consegui perceber, mais ou menos, como funcionas e até nem fiquei decepcionada. Só que talvez não sejas o que procuro, se é que procuro algo!

Descobri também que não és indiferente ao mundo dos afectos, que também não escapaste ao vulcão em actividade, a ferver, a incendiar o que ainda não ardeu! Serás mais um príncipe do nada, metido com um princesa igualmente inútil. Não sei, nem quero saber, porque no fundo são todos iguais, homens e mulheres, a par com a inutilidade que corrompe a réstia de humanidade, o romantismo talvez ainda mais improfícuo. Por isso a treta da virilidade ainda é terrivelmente tão estúpida como eu ao perder tempo a debater a superfície do ego masculino.

E se realmente vieres a ser eleito rei de qualquer esterco, apenas emigrarei sem preparar revolução alguma porque mesmo que sejas corrompido à exaustão será impossível eliminarem o teu âmago íntegro e afável.

Confesso que esperava mais de ti. Mas também é um grande defeito meu esperar mais das pessoas do que elas podem e são capazes de dar e ser. Nada do que disse abala a nossa amizade. Não tens culpa de eu pensar que tinhas mais valor para mim do que realmente tens.
As respostas que procuras não sou que tas vou dar. E agora acho que nem as minhas tas posso encarecidamente oferecer. Acho que nem as minhas a mim mesma consigo dar.

Espero que as nuvens não estejam furadas nem o teu anjo da guarda faça greve. Não quero ver a tristeza dos teus olhos a contagiar o teu rosto, a tua alma. Quero que os teus passos sejam seguros e que o teu coração tenha a capacidade de se refazer das mágoas, as feridas curadas com anestesia e o sistema imunitário na máxima força.

A esta hora estás tu mergulhado nos sonhos, na certeza de que vais ser alguém. . Se tivesse a ilusão dos dezoito anos seria possível acreditar que eras um anjo, assim fico-me pela ideia que, até prova em contrário, és um tipo porreiro que merece ser feliz, mesmo sem asas nem auréola nem aquela fatiota branca.

Continuo a querer que os teus passos te levem ao possível do impossível. Ficar-me-ei pela fila dos amigos que te aplaudem, no grande auditório do mundo, porque a tua vida ainda agora começou… e a mim só me resta dizer-te que amar-te-ei sempre mas sempre (e apenas) como amiga, aliás, como sempre o fui.

Fica bem e sê mesmo muito feliz!

Sandra Bastos

sábado, setembro 16, 2006

Nota biográfica, escrita por Fernando Pessoa


Nome completo: Fernando António Nogueira Pessoa.

Idade e naturalidade: Nasceu em Lisboa, freguesia dos Mártires, no prédio n.º 4 do Largo de S. Carlos (hoje do Directório) em 13 de Junho de 1888.

Filiação: Filho legítimo de Joaquim de Seabra Pessoa e de D. Maria Madalena Pinheiro Nogueira. Neto paterno do general Joaquim António de Araújo Pessoa, combatente das campanhas liberais, e de D. Dionísia Seabra; neto materno do conselheiro Luís António Nogueira, jurisconsulto e que foi Director-Geral do Ministério do Reino, e de D. Madalena Xavier Pinheiro. Ascendência geral: misto de fidalgos e judeus.


Estado: Solteiro.

Profissão: A designação mais própria será «tradutor», a mais exacta a de «correspondente estrangeiro em casas comerciais». O ser poeta e escritor não constitui profissão, mas vocação.

Morada: Rua Coelho da Rocha, 16, 1º. Dto. Lisboa. (Endereço postal - Caixa Postal 147, Lisboa).

Funções sociais que tem desempenhado: Se por isso se entende cargos públicos, ou funções de destaque, nenhumas.


Obras que tem publicado: A obra está essencialmente dispersa, por enquanto, por várias revistas e publicações ocasionais. O que, de livros ou folhetos, considera como válido, é o seguinte: «35 Sonnets» (em inglês), 1918; «English Poems I-II» e «English Poems III» (em inglês também), 1922, e o livro «Mensagem», 1934, premiado pelo Secretariado de Propaganda Nacional, na categoria «Poema». O folheto «O Interregno», publicado em 1928, e constituído por uma defesa da Ditadura Militar em Portugal, deve ser considerado como não existente. Há que rever tudo isso e talvez que repudiar muito.

Educação: Em virtude de, falecido seu pai em 1893, sua mãe ter casado, em 1895, em segundas núpcias, com o Comandante João Miguel Rosa, Cônsul de Portugal em
Durban, Natal, foi ali educado. Ganhou o prémio Rainha Vitória de estilo inglês na Universidade do Cabo da Boa Esperança em 1903, no exame de admissão, aos 15 anos.

Ideologia Política: Considera que o sistema monárquico seria o mais próprio para uma nação organicamente imperial como é Portugal. Considera, ao mesmo tempo, a
Monarquia completamente inviável em Portugal. Por isso, a haver um plebiscito entre regimes, votaria, embora com pena, pela República. Conservador do estilo inglês, isto é, liberdade dentro do conservantismo, e absolutamente anti-reaccionário.

Posição religiosa:
Cristão gnóstico e portanto inteiramente oposto a todas as Igrejas organizadas, e sobretudo à Igreja de Roma. Fiel, por motivos que mais adiante estão implícitos, à Tradição Secreta do Cristianismo, que tem íntimas relações com a Tradição Secreta em Israel (a Santa Kabbalah) e com a essência oculta da Maçonaria.

Posição iniciática: Iniciado, por comunicação directa de Mestre a Discípulo, nos três graus menores da (aparentemente extinta)
Ordem Templária de Portugal.

Posição patriótica: Partidário de um nacionalismo místico, de onde seja abolida toda a infiltração católico-romana, criando-se, se possível for, um
sebastianismo novo, que a substitua espiritualmente, se é que no catolicismo português houve alguma vez espiritualidade. Nacionalista que se guia por este lema: «Tudo pela Humanidade; nada contra a Nação».

Posição social:
Anticomunista e anti-socialista. O mais deduz-se do que vai dito acima.

Resumo de estas últimas considerações: Ter sempre na memória o mártir
Jacques de Molay, Grão-Mestre dos Templários, e combater, sempre e em toda a parte, os seus três assassinos - a Ignorância, o Fanatismo e a Tirania.

Lisboa, 30 de Março de 1935 [no original 1933, por aparente lapso]

Se depois de eu morrer

"Se depois de eu morrer, quiserem escrever a minha biografia,
Não há nada mais simples
Tem só duas datas — a da minha nascença e a da minha morte.
Entre uma e outra cousa todos os dias são meus.

Sou fácil de definir.
Vi como um danado.
Amei as cousas sem sentimentalidade nenhuma.
Nunca tive um desejo que não pudesse realizar, porque nunca ceguei.
Mesmo ouvir nunca foi para mim senão um acompanhamento de ver.
Compreendi que as cousas são reais e todas diferentes umas das outras;
Compreendi isto com os olhos, nunca com o pensamento.
Compreender isto com o pensamento seria achá-las todas iguais.

Um dia deu-me o sono como a qualquer criança.
Fechei os olhos e dormi.
Além disso, fui o único poeta da Natureza."

Alberto Caeiro

Alberto Caeiro


Alberto Caeiro da Silva nasceu em 1889, em Lisboa, onde mais tarde viria a falecer, em 1915, vítima de tuberculose. Não obstante a sua origem urbana, é conhecido pela sua expressão rural, tendo sido pastor numa quinta do Ribatejo.

Partindo do princípio de que nada existe para além do que se vê, Alberto Caeiro cultiva uma espécie de “filosofia do não filosofar”. A sua obra poética é marcada pela contemplação da natureza através dos sentidos, procurando “sentir as coisas simples da vida com maior intensidade”.

“Mesmo assim, enquanto tenta provar que não intelectualiza nada, é o que mais intelectualiza entre as personalidades pessoanas, parece usar o raciocínio sem querer demonstrar isso. Daí ser o mais infeliz, por restringir o mundo, além de fugir do progresso e a ele renunciar.” (Batista de Lima in «Jornal da Poesia»)

segunda-feira, setembro 11, 2006

Chamo-te sem saber quem és

Estou sentada na areia fina de uma praia. Sinto o cheiro da água salgada, a brisa que enrodilha o meu cabelo enquanto me deixo levar pela contemplação do pôr-do-sol. Uma luz forte mas que não fere, atinge o meu âmago, faz-me esquecer quem sou, onde estou e para onde vou.

Longe de mim mesma mergulho nas divagações ensombrada por uma imagem que caminha pelo mar rebelde. É um homem que transpira beleza mas no qual se distingue um olhar triste. Olha distraído para o chão à procura dos sentimentos que perdeu algures entre a multidão. Vejo-lhe a alma, nítida pela transparência do seu corpo, leio-lhe os pensamentos… que diferente ele é! Tão puro e disposto a ser corrompido!

Chamo-o sem saber que nome tem. Não me ouve com a concentração em coisas inúteis mas sentimentais, ingénuas mas compreensíveis. Não insisto até porque me faltam as forças, a voz enfraquecida… Mas porquê chamar uma pessoa que não me ouve? Que passa por mim e nem me vê? Outros hão-de vir, outros passarão, quem sabe se ficam para me ouvir um pouco e haja algum que acabe por ficar para sempre.

O que mais me impressiona é a minha calma talvez indiferente. Como não me preocupa se não me ouvem! Se os meus gritos fazem eco no oceano mas não são perceptíveis ao ouvido humano.
Como é boa a vida e bonito o pôr-do-sol! A luz que ilumina mas não fere!

Amo-te! A ti que não conheço nem sei quando vou realizar o sonho de te conhecer. A ti, que és o único que dispensará os meus gritos para me ouvir, que não precisará que o chame para me poder ver. A ti que amarei para além das minhas forças e que não precisarei de provar até onde poderei ir para te fazer feliz! A ti que caminhas no deserto da multidão à procura da intensidade do momento, do melhor que o pior pode ter. A ti que tens o que os outros não têm. A ti que bastará um olhar para sentir o quanto me amas.

Continuo à tua espera… mesmo que ainda estejas do outro lado do oceano e que ainda seja demasiado cedo para nos amarmos… mesmo que ainda tenhamos de conhecer muitas pessoas erradas até termos a certeza de que fomos feitos um para o outro.

Sim, serás músico. Qual é o teu instrumento? Eu sabia que adoravas o concerto para violoncelo de Elgar, que a trompa te ia encantar e que o fagote era irresistível. Todos os outros apenas servem para nos acompanhar…