quinta-feira, setembro 28, 2006
Crítica Literária: Os Seis
Por tudo isto, no teu romance, a simplicidade de estilo não coincide de forma alguma com um enredo ligeiro. Mesmo o leitor mais desatento não tem dificuldade em identificar o existencialismo e a reflexão sobre a fragilidade humana que está presente nas tuas obras, não sendo Os Seis excepção.
O recurso a frases curtas, o discurso suspenso, o aparente excesso de pontuação ao invés de aparentar fragmentação ou incoerência, estimula a pausa, convida à reflexão e implica o leitor no que lê. Leva-o à leitura subentendida, à vivência dos factos.
As seis personagens da obra aparentemente muito semelhantes (na idade, na experiência, no meio), acabam por ser muito mais que um estereótipo e permitir ao leitor ver em cada uma delas traços de si próprio ou do adolescente que foi.
Os factos narrados, o relacionamento entre as personagens, as condicionantes quer da aproximação quer do afastamento, o desmembramento do grupo, a amizade real ou aparente, os triângulos amorosos, a valorização da beleza física, as aparências, o divórcio são temas muito actuais que conferem muita importância ao romance e o tornam verosímil. Deste modo, elogio muito a realidade maior, que pelo estilo, pelo suspense, pelas interrogações retóricas, (etc) desperta no leitor o oculto e lhe abre os horizontes. Sou adepta de leituras profundas que me obriguem a pensar, a reviver factos passados, me inquietem e a tua obra, apesar de achar que podia ser mais desenvolvida, permite o envolvimento necessário e obriga à reflexão.
Quando digo que a tua obra podia ser mais desenvolvida, refiro-me sobretudo ao facto de teres criado um enredo rico e dotado as tuas personagens de muita vida própria para depois apresentares o rumo dos factos de uma forma demasiado simplista e cortares, de certa forma, o raciocínio ao leitor.
Deixo-te aqui um desafio, um apelo, incentivo… o que lhe quiseres chamar! Não tenhas receio de escrever obras mais volumosas… N’ Os Seis criaste um enredo que te permite escrever, escrever e escrever… e tu és capaz disso… Acabei de ler a obra e fiquei com vontade de ler mais… continuar a lê-la. É uma crítica positiva… significa que estás no bom caminho, que os teus escritos são muito superiores a muita literatura que inunda as nossas livrarias e que deves ousar escrever obras mais densas.
Enumero agora alguns aspectos menores:
Não percebo o motivo de realçares muito a beleza física das tuas personagens femininas, se bem que são aspectos muito valorizados pelos adolescentes (daí a tua opção se calhar).
Recorreste por vezes ao calão e a uma linguagem mais popular que a meu ver não se identifica muito com a tua escrita. Refiro alguns exemplos: “merda”; “enfardava”; “seu filho da puta”; “caralhos”; “que se fodesse” (esta última atribuída ao Rui, uma personagem com uma conduta exemplar.
Para terminar, dou-te os parabéns pelo teu trabalho.
Continua que os bons leitores agradecem."
Esperança Martins
Crítica Literária aOs Seis
Tenho a agradecer-lhe o muito trabalho e tempo que dispensou com as minhas palavras. Muito obrigada!
Vou publicar parte do texto que ela me enviou...
A Esperança é licenciada em Português, Latim e Grego (se não estou em erro), e actualmente está a fazer um doutoramente na Universidade de Aveiro.
segunda-feira, setembro 25, 2006
A praxe, o ensino superior, o mercado de trabalho
Segundo o Portal do Governo, o número de candidatos ao ensino superior público aumentou 4% em relação ao ano passado. Foram colocados na primeira fase 86%, ou seja, 34860 estudantes. Para a segunda fase estão ainda disponíveis 11687 vagas.
Paralelamente o ensino superior privado tem vindo a perder, desde 1996, 30 mil alunos, sendo cerca de 15 mil só nos últimos dois anos.
Apesar de aparentemente o acesso ao ensino superior estar mais facilitado, a sua sobrevivência passa por maiores dificuldades: "o anúncio é que haverá um corte de 6,2 por cento no orçamento de funcionamento em termos nominais. Este valor pode corresponder, em termos reais, a um corte de oito a dez por cento". (Público) As consequências vão ser sentidas por professores e alunos. Os despedimentos tendem a crescer no ensino superior público, "onde há uma grande percentagem de docentes com contratos a prazo". Quanto aos alunos, é provável que tenham de pagar propinas ainda mais altas para "colmatar o orçamento previsto para cada instituição".
Mas o que me chamou a atenção quando vi o movimento da praxe nem foi tanto a crise que ameaça as universidades e politécnicos, mas antes a crise do mercado de trabalho. Fico com a ideia de que andamos todos enganados. Entramos felizes para a universidade, fazemos o curso com todo o entusiasmo (não é o meu caso, infelizmente) e depois, quando saímos, percebemos que não há nada do que nos prometeram a vida inteira, não há a realização profissional, o emprego para o qual estudamos... uma ilusão alimentada pelo ambiente que nos rodeia que se desfaz logo na procura de trabalho.
domingo, setembro 24, 2006
A propósito do casamento...
"Cada um traz consigo as alianças perdidas que acabam sempre por aparecer, nem que seja para fazer de símbolos um sentido que a vida muitas vezes não traz."
Vejam em Instante Fatal
Florinda
Florinda fora prendada com um rosto bonito, onde reluziam os olhos azuis mas faltava o cabelo loiro. Tal carência depressa passou a um desespero que se transformou numa angústica insuportável que martelava dia e noite na cabeça ou no espelho da beldade.
Um dia, uma ideia despertou no seu cérebro, festejada à exaustão durante uma semana, e, após conseguir, com algum esforço, outra ideia para pôr a primeira em prática, Florinda lá apareceu com o cabelo pintado de amarelo.
Uma tentativa minha, naturalmente frustrada (esqueci-me de um grande pormenor), de criar a personagem Florinda
Harriet
Declaração de Mr. Knightley

"- Não sei fazer discursos, Ema (...) Se a amasse menos talvez pudesse dizer mais coisas. Mas a Ema sabe como sou. De mim não ouvirá senão a verdade. Censurei-a e repreendi-a, e a Ema suportou tudo isso como mais nenhuma mulher em Inglaterra o teria suportado. Perdoe as verdades que agora lhe digo, querida Ema, como tem perdoado outras. O modo como são ditas talvez pouco as recomende. Deus sabe que tenho sido um apaixonado bem pouco atencioso. Mas compreenda-me... Sim, bem vê, deve compreender os meus sentimentos... e retribuí-los-á se puder. Por enquanto, só peço que me deixe ouvir a sua voz, uma vez que seja."
Jane Austen, em "Ema"
Pobre Mr. Elton
Jan Austen, em "Ema"
O resto do jantar
Jane Austen, em "Ema"
"Redução de custos" no Público
A empresa do Público justifica esta decisão com os fracos resultados negativos que "têm vindo a afectar a imprensa diária” (perda de circulação e quebra nas receitas publicitárias).
Segundo o JN, estima-se que esta medida vai afectar "cerca de 30 pessoas. Pelo menos no Porto a proposta foi feita a oito jornalistas. A delegação de Coimbra ficará reduzida a uma redactora. O corpo editorial é constituído, neste momento, por 140 profissionais."
sábado, setembro 23, 2006
Edição Crítica de Fernando Pessoa

A propósito de Fernando Pessoa, a Imprensa Nacional-Casa da Moeda editou o sétimo volume da Edição Crítica de Fernando Pessoa, com o título editorial: Escritos sobre Génio e Loucura.
Quase todo o material era inédito, daí a sua importância. As investigações foram feitas pelo colombiano Jeronimo Pizarro, entrevistado pelo Expresso na edição desta semana.
"A importância do tema da loucura em Fernando Pessoa foi reconhecida por diversos estudiosos da obra do poeta e motivou alguns breves ensaios. Numa relação directa com o tema, surge quase sempre como necessária a questão da heteronímia." Pessoa terá partido do princípio de que "o génio está do lado da anormalidade - da anormalidade social, na medida em que é um inadaptado, e da anormalidade psíquica, na medida em que tem origem no ciclo bipolar da exaltação e da depressão." (Expresso)
Reabertura do Teatro Circo de Braga

É com grande felicidade que informo os que ainda não sabem que o Teatro Circo de Braga vai reabrir em breve, após muitos anos de obras.
Assim, no dia 27 de Outubro, os convidados da autarquia e, provavelmente, o primeiro-ministro e a ministra da Cultura, poderão ouvir a Orquestra Sinfónica Nacional Checa, num teatro a sério com 15 pisos! Os pormenores do edifício e dos montantes envolventes podem ser consultados no Google Notícias de Portugal.
"Tirando o concerto de abertura, não vai haver borlas para ninguém. Até eu, se quiser assistir a um espectáculo, terei que pagar bilhete", disse Mesquita Machado, presidente da Câmara de Braga, ao JN, acrescentando que esta será "a segunda maior obra de Braga. Se calhar, de toda a sua história, incluindo a época romana".
O Teatro Circo vai ter uma agenda cultural própria e uma programação dedicada a determinados países. O Brasil é o primeiro contemplado. A agenda completa até ao final do ano em Programação do Teatro Circo.
Carta de Despedida
Só guardo boas recordações tuas. Uma amizade talvez para toda a vida. Momentos fantásticos, onde partilhamos emoções, ideias, conhecimentos, sentimentos, dúvidas… Caminhei perto de ti tanto tempo que me custa imaginar-te longe dos meus passos. Falo e falarei de ti como amigo. Porque isso sempre foi o mais importante para além de qualquer ilusão, de qualquer desejo de intensificar algum sentimento mais especial. Tenho a tua amizade, que guardarei comigo como um bem precioso, esteja onde estiver.
Como não tenho nada de novo para te dizer além de que esta é a última vez que te escrevo, que o meu sentimento se esgotou, sem que alguma coisa o aniquilasse, apareceu de repente e quase da mesma forma desapareceu, sem saber muito bem como, tão naturalmente como o envelhecimento dos seres vivos.
Em tua homenagem revejo o que escrevi, talvez o que senti ou julguei, por breves instantes, sentir. A expressividade do teu rosto que hoje nada mais me lembra do que um semblante talvez simpático. Terás um olhar sedutor mas não mais para mim. Certamente continuarás a atrair muitos corações ou apenas instintos femininos! Continuo a achar que tens uma personalidade forte, que és muito seguro e confiante mas confesso que não tanto como imaginava. Talvez achasse que não tinhas pontos mais frágeis, mas tens, como toda a gente. És muito virtuoso, mas há tantos artistas de nível igual ou mesmo superior. Mesmo que não transpirasses tanto talento, continuavas a ser especial. Reparei também que por vezes o teu cérebro se deixa dominar pelo coração. És humano, felizmente!
Nunca cheguei a saber se conhecias o Nocturno do Sonho de Uma Noite de Verão. Estar contigo foi o meu sonho em muitas noites deste Verão, que termina nesta madrugada. Chamei por ti mas não me ouviste. Não consegui ouvir a tua música fundida na orquestra da sociedade. Sabia que estavas lá mas não distinguia o teu som entre tantos. Pois claro, o nome do instrumento… Seria mais um violino entre tantos os outros? A delicadeza de uma harpa? Ferrinhos? Viola? Ok, nem se ouve na orquestra, coitadinho!
Comecei a falar de ti às três da madrugada e acabo quase à mesma hora! Mas desta vez já não me perco a falar de ti. Muito menos a esperar e a procurar-te na paisagem da multidão.
Já não estás aí porque perdeste a paciência para me ouvires. De facto perdi muitas horas mergulhada na complexidade no teu ser. Valeu a pena, fiz muitos progressos na minha capacidade de análise! Consegui perceber, mais ou menos, como funcionas e até nem fiquei decepcionada. Só que talvez não sejas o que procuro, se é que procuro algo!
Descobri também que não és indiferente ao mundo dos afectos, que também não escapaste ao vulcão em actividade, a ferver, a incendiar o que ainda não ardeu! Serás mais um príncipe do nada, metido com um princesa igualmente inútil. Não sei, nem quero saber, porque no fundo são todos iguais, homens e mulheres, a par com a inutilidade que corrompe a réstia de humanidade, o romantismo talvez ainda mais improfícuo. Por isso a treta da virilidade ainda é terrivelmente tão estúpida como eu ao perder tempo a debater a superfície do ego masculino.
E se realmente vieres a ser eleito rei de qualquer esterco, apenas emigrarei sem preparar revolução alguma porque mesmo que sejas corrompido à exaustão será impossível eliminarem o teu âmago íntegro e afável.
Confesso que esperava mais de ti. Mas também é um grande defeito meu esperar mais das pessoas do que elas podem e são capazes de dar e ser. Nada do que disse abala a nossa amizade. Não tens culpa de eu pensar que tinhas mais valor para mim do que realmente tens.
As respostas que procuras não sou que tas vou dar. E agora acho que nem as minhas tas posso encarecidamente oferecer. Acho que nem as minhas a mim mesma consigo dar.
Espero que as nuvens não estejam furadas nem o teu anjo da guarda faça greve. Não quero ver a tristeza dos teus olhos a contagiar o teu rosto, a tua alma. Quero que os teus passos sejam seguros e que o teu coração tenha a capacidade de se refazer das mágoas, as feridas curadas com anestesia e o sistema imunitário na máxima força.
A esta hora estás tu mergulhado nos sonhos, na certeza de que vais ser alguém. . Se tivesse a ilusão dos dezoito anos seria possível acreditar que eras um anjo, assim fico-me pela ideia que, até prova em contrário, és um tipo porreiro que merece ser feliz, mesmo sem asas nem auréola nem aquela fatiota branca.
Continuo a querer que os teus passos te levem ao possível do impossível. Ficar-me-ei pela fila dos amigos que te aplaudem, no grande auditório do mundo, porque a tua vida ainda agora começou… e a mim só me resta dizer-te que amar-te-ei sempre mas sempre (e apenas) como amiga, aliás, como sempre o fui.
Fica bem e sê mesmo muito feliz!
Sandra Bastos
sábado, setembro 16, 2006
Nota biográfica, escrita por Fernando Pessoa
Nome completo: Fernando António Nogueira Pessoa.
Idade e naturalidade: Nasceu em Lisboa, freguesia dos Mártires, no prédio n.º 4 do Largo de S. Carlos (hoje do Directório) em 13 de Junho de 1888.
Filiação: Filho legítimo de Joaquim de Seabra Pessoa e de D. Maria Madalena Pinheiro Nogueira. Neto paterno do general Joaquim António de Araújo Pessoa, combatente das campanhas liberais, e de D. Dionísia Seabra; neto materno do conselheiro Luís António Nogueira, jurisconsulto e que foi Director-Geral do Ministério do Reino, e de D. Madalena Xavier Pinheiro. Ascendência geral: misto de fidalgos e judeus.
Estado: Solteiro.
Profissão: A designação mais própria será «tradutor», a mais exacta a de «correspondente estrangeiro em casas comerciais». O ser poeta e escritor não constitui profissão, mas vocação.
Morada: Rua Coelho da Rocha, 16, 1º. Dto. Lisboa. (Endereço postal - Caixa Postal 147, Lisboa).
Funções sociais que tem desempenhado: Se por isso se entende cargos públicos, ou funções de destaque, nenhumas.
Obras que tem publicado: A obra está essencialmente dispersa, por enquanto, por várias revistas e publicações ocasionais. O que, de livros ou folhetos, considera como válido, é o seguinte: «35 Sonnets» (em inglês), 1918; «English Poems I-II» e «English Poems III» (em inglês também), 1922, e o livro «Mensagem», 1934, premiado pelo Secretariado de Propaganda Nacional, na categoria «Poema». O folheto «O Interregno», publicado em 1928, e constituído por uma defesa da Ditadura Militar em Portugal, deve ser considerado como não existente. Há que rever tudo isso e talvez que repudiar muito.
Educação: Em virtude de, falecido seu pai em 1893, sua mãe ter casado, em 1895, em segundas núpcias, com o Comandante João Miguel Rosa, Cônsul de Portugal em Durban, Natal, foi ali educado. Ganhou o prémio Rainha Vitória de estilo inglês na Universidade do Cabo da Boa Esperança em 1903, no exame de admissão, aos 15 anos.
Ideologia Política: Considera que o sistema monárquico seria o mais próprio para uma nação organicamente imperial como é Portugal. Considera, ao mesmo tempo, a Monarquia completamente inviável em Portugal. Por isso, a haver um plebiscito entre regimes, votaria, embora com pena, pela República. Conservador do estilo inglês, isto é, liberdade dentro do conservantismo, e absolutamente anti-reaccionário.
Posição religiosa: Cristão gnóstico e portanto inteiramente oposto a todas as Igrejas organizadas, e sobretudo à Igreja de Roma. Fiel, por motivos que mais adiante estão implícitos, à Tradição Secreta do Cristianismo, que tem íntimas relações com a Tradição Secreta em Israel (a Santa Kabbalah) e com a essência oculta da Maçonaria.
Posição iniciática: Iniciado, por comunicação directa de Mestre a Discípulo, nos três graus menores da (aparentemente extinta) Ordem Templária de Portugal.
Posição patriótica: Partidário de um nacionalismo místico, de onde seja abolida toda a infiltração católico-romana, criando-se, se possível for, um sebastianismo novo, que a substitua espiritualmente, se é que no catolicismo português houve alguma vez espiritualidade. Nacionalista que se guia por este lema: «Tudo pela Humanidade; nada contra a Nação».
Posição social: Anticomunista e anti-socialista. O mais deduz-se do que vai dito acima.
Resumo de estas últimas considerações: Ter sempre na memória o mártir Jacques de Molay, Grão-Mestre dos Templários, e combater, sempre e em toda a parte, os seus três assassinos - a Ignorância, o Fanatismo e a Tirania.
Lisboa, 30 de Março de 1935 [no original 1933, por aparente lapso]
Se depois de eu morrer
Não há nada mais simples
Tem só duas datas — a da minha nascença e a da minha morte.
Entre uma e outra cousa todos os dias são meus.
Sou fácil de definir.
Vi como um danado.
Amei as cousas sem sentimentalidade nenhuma.
Nunca tive um desejo que não pudesse realizar, porque nunca ceguei.
Mesmo ouvir nunca foi para mim senão um acompanhamento de ver.
Compreendi que as cousas são reais e todas diferentes umas das outras;
Compreendi isto com os olhos, nunca com o pensamento.
Compreender isto com o pensamento seria achá-las todas iguais.
Um dia deu-me o sono como a qualquer criança.
Fechei os olhos e dormi.
Além disso, fui o único poeta da Natureza."
Alberto Caeiro
Alberto Caeiro

Alberto Caeiro da Silva nasceu em 1889, em Lisboa, onde mais tarde viria a falecer, em 1915, vítima de tuberculose. Não obstante a sua origem urbana, é conhecido pela sua expressão rural, tendo sido pastor numa quinta do Ribatejo.
Partindo do princípio de que nada existe para além do que se vê, Alberto Caeiro cultiva uma espécie de “filosofia do não filosofar”. A sua obra poética é marcada pela contemplação da natureza através dos sentidos, procurando “sentir as coisas simples da vida com maior intensidade”.
“Mesmo assim, enquanto tenta provar que não intelectualiza nada, é o que mais intelectualiza entre as personalidades pessoanas, parece usar o raciocínio sem querer demonstrar isso. Daí ser o mais infeliz, por restringir o mundo, além de fugir do progresso e a ele renunciar.” (Batista de Lima in «Jornal da Poesia»)
segunda-feira, setembro 11, 2006
Chamo-te sem saber quem és
Longe de mim mesma mergulho nas divagações ensombrada por uma imagem que caminha pelo mar rebelde. É um homem que transpira beleza mas no qual se distingue um olhar triste. Olha distraído para o chão à procura dos sentimentos que perdeu algures entre a multidão. Vejo-lhe a alma, nítida pela transparência do seu corpo, leio-lhe os pensamentos… que diferente ele é! Tão puro e disposto a ser corrompido!
Chamo-o sem saber que nome tem. Não me ouve com a concentração em coisas inúteis mas sentimentais, ingénuas mas compreensíveis. Não insisto até porque me faltam as forças, a voz enfraquecida… Mas porquê chamar uma pessoa que não me ouve? Que passa por mim e nem me vê? Outros hão-de vir, outros passarão, quem sabe se ficam para me ouvir um pouco e haja algum que acabe por ficar para sempre.
O que mais me impressiona é a minha calma talvez indiferente. Como não me preocupa se não me ouvem! Se os meus gritos fazem eco no oceano mas não são perceptíveis ao ouvido humano.
Como é boa a vida e bonito o pôr-do-sol! A luz que ilumina mas não fere!
Amo-te! A ti que não conheço nem sei quando vou realizar o sonho de te conhecer. A ti, que és o único que dispensará os meus gritos para me ouvir, que não precisará que o chame para me poder ver. A ti que amarei para além das minhas forças e que não precisarei de provar até onde poderei ir para te fazer feliz! A ti que caminhas no deserto da multidão à procura da intensidade do momento, do melhor que o pior pode ter. A ti que tens o que os outros não têm. A ti que bastará um olhar para sentir o quanto me amas.
Continuo à tua espera… mesmo que ainda estejas do outro lado do oceano e que ainda seja demasiado cedo para nos amarmos… mesmo que ainda tenhamos de conhecer muitas pessoas erradas até termos a certeza de que fomos feitos um para o outro.
Sim, serás músico. Qual é o teu instrumento? Eu sabia que adoravas o concerto para violoncelo de Elgar, que a trompa te ia encantar e que o fagote era irresistível. Todos os outros apenas servem para nos acompanhar…
quarta-feira, agosto 30, 2006
Criação de Alberto Caeiro
Fernando Pessoa
quarta-feira, agosto 09, 2006
Se alguém bater um dia à tua porta
Dizendo que é um emissário meu,
Não acredites, nem que seja eu;
Que o meu vaidoso orgulho não comporta
Bater sequer à porta irreal do céu.
Mas se, naturalmente, e sem ouvir
Alguém bater, fores a porta abrir
E encontrares alguém como que à espera
De ousar bater, medita um pouco. Esse era
Meu emissário e eu e o que comporta
O meu orgulho do que desespera.
Abre a quem não bater à tua porta!"
Fernando Pessoa
terça-feira, agosto 08, 2006
A nossa Herança!
a grande casa do Mundo.
Na qual devemos conviver.
Negros, brancos,
ocidentais e orientais,
hebreus, não hebreus
católicos e protestantes,
muçulmanos e hinduístas.
Uma família que, injustamente, está dividida
por ideias, culturas e interesses.
Dado que já não podemos viver separados.
Devemos aprender a conviver em paz.
TODOS OS HABITANTES DO MUNDO SÃO VIZINHOS.
Martin Luther King
segunda-feira, agosto 07, 2006
Desabafo de um coração apertado!
Com ele leva uma vida feita de sonhos, uma humanidade cansada e as feridas do tempo cruel. Os seus olhos, marcados pela tristeza, olham no vazio a cada passo que dá. Mil pedaços de nada preenchem o seu coração oprimido pela aridez do chão que pisa.
Lá vai, caminha desmotivado rumo a um lugar que sabe que não existe, procura uma certeza que o aprisiona por ser incerta e adormece no meio da estrada sem a vontade de acordar para retomar o caminho.
Em busca de descanso apenas, esbarra com uma vida repleta de felicidade que o procura em sonhos durante o sono.... mas ele apenas queria dormir... já lhe faltava a força para voltar a acreditar.
Esperança Martins
sexta-feira, agosto 04, 2006
Isto é mesmo divagar...
Amanhã tenho de me pôr a pé mais cedo, sabe-se lá porquê. Os sonhos e as ilusões comandam a vida. Até que se desfaçam em desilusões, até cairmos na realidade, até aterrarmos.
Amigas, nada está perdido. Acreditem que a solução está em nós mesmas. A força de que precisamos, a vontade em continuar a lutar mesmo que seja por sonhos absurdos... isso está cá dentro e ninguém nos pode tirar. E depois há a maravilhosa paisagem da natureza também humana. Um gelado delicioso, uma boas gargalhadas e tudo parece ficar bem. E fica, sem esses momentos únicos de diversão e lazer que seria da nossa vida? Uma miséria.
Sabem a liberdade é uma coisa tão... fundamental. Que prazer supera usarmos os nossos próprios neurónios? Não depender de ninguém para falar ou dar a resposta certa. Imagina se vivessemos numa ditadura. Mais frequente, numa relação ditatorial. Oh, não podias dizer nada sem que passasse primeiro na censura. Não te rias, conheço tantos exemplos. Sei bem do que estou a falar. Talvez infelizmente.
Sim, amigas, eu sei dessa treta toda e só não vos apresento estatísticas porque não vos quero desanimar. Vós não mereceis sofrer. Tendes o direito, a obrigação de lutar pelos vossos sonhos. Queria sonhar como vós, mas não consigo. A realidade aniquila esses sonhos. Resta-me um... ser feliz!
E se a liberdade me traz tanta felicidade, que valor seria superior à minha querida liberdade?
Não, desculpem mas não acredito. Neste caso sou como Tomé, só vendo... ou vivendo.
Isto tudo a propósito da minha concentração no meu livro e na falta de textos originais neste blogue... oh como não resisto a uma divagação...
E tu, devias pensar também em conquistar os outros... em geral, claro. Porque isso de estares habituado a que todos te façam a corte não te prepara para as adversidades. Um dia as coisas podem ser diferentes. Mas, sabes, tens toda a razão, há que ser rei enquanto houver monarquia, depois se vier a república tu lá arranjarás uma solução para sobreviveres. Desculpa, sou mesmo republicana por isso recuso-me a fazer-te uma vénia. E com tantos súbditos a ajoelharem-se perante ti, certamente nem te vais aperceber que preparo um golpe de estado para te tirar essas mordomias. Em último caso, se não assistir à revolução peço o exílio antes de fazeres de mim uma presa política. Ok, és um bom rei. Vaidoso mas inteligente. Devo exagerar. E a monarquia, bem lá no fundo do fundo, deve ter algo de positivo. Quem sabe se não és um novo D. Sebastião que vai surgir no nevoeiro para salvar a pátria?
Nessa nem vendo acreditaria... Há coisas que nem mesmo se as apalparmos nos parecem reais. É hora... de dormir. E também despertar para as injustiças. Oh, se este mundo fosse mesmo bom... se tipos como tu nunca chegassem a reis... se as pessoas estúpidas pensassem... e se os neurónios estivessem no coração...
Sandra Bastos
quinta-feira, agosto 03, 2006
O amor, quando se revela...
O amor, quando se revela,
Não se sabe revelar.
Sabe bem olhar p'ra ela,
Mas não lhe sabe falar.
Quem quer dizer o que sente
Não sabe o que há-de dizer.
Fala: parece que mente
Cala: parece esquecer
Ah, mas se ela adivinhasse,
Se pudesse ouvir o olhar,
E se um olhar lhe bastasse
Pra saber que a estão a amar!
Mas quem sente muito, cala;
Quem quer dizer quanto sente
Fica sem alma nem fala,
Fica só, inteiramente!
Mas se isto puder contar-lhe
O que não lhe ouso contar,
Já não terei que falar-lhe
Porque lhe estou a falar...
Fernando Pessoa
Quando estou só reconheço
Se por momentos me esqueço
Que existo entre outros que são
Como eu sós, salvo que estão
Alheados desde o começo.
E se sinto quanto estou
Verdadeiramente só,
Sinto-me livre mas triste.
Vou livre para onde vou,
Mas onde vou nada existe.
Creio contudo que a vida
Devidamente entendida
É toda assim, toda assim.
Por isso passo por mim
Como por cousa esquecida."
Fernando Pessoa
quarta-feira, agosto 02, 2006
Segue o teu destino
Rega as tuas plantas,
Ama as tuas rosas.
O resto é a sombra
De árvores alheias.
A realidade
Sempre é mais ou menos
Do que nós queremos.
Só nós somos sempre
Iguais a nós-próprios.
Suave é viver só.
Grande e nobre é sempre
Viver simplesmente.
Deixa a dor nas aras
Como ex-voto aos deuses.
Vê de longe a vida.
Nunca a interrogues.
Ela nada pode
Dizer-te. A resposta
Está além dos deuses.
Mas serenamente
Imita o Olimpo
No teu coração.
Os deuses são deuses
Porque não se pensam."
Ricardo Reis
Assim se escreve em bom português!!!
É possível que o leitor esteja a ler este artigo agora na sua cama, com a ajuda dos seus nasóculos e à luz suave de um lucivelo. Os artigos escritos pelos alvissareiros misturam-se, harmoniosamente, aos preconícios que louvam as virtudes de sortidos produtos. Está calor neste final de primavera, e decerto o nosso leitor não retira há muito tempo da sua gaveta o focale que lhe aquece o pescoço no frio. E provavelmente terá reparado como é grande, nos últimos tempos, o número de ludâmbulos que, vindos de outros Estados e até de outros países, se abalam a conhecer os encantos da cidade.
Baseado em Castro Lopes – Neologismos Indispensáveis e Barbarismos Dispensáveis
segunda-feira, julho 31, 2006
Já não me importo
Até com o que amo ou creio amar.
Sou um navio que chegou a um porto
E cujo movimento é ali estar.
Nada me resta
Do que quis ou achei.
Cheguei da festa
Como fui para lá ou ainda irei.
Indiferente
A quem sou ou suponho que mal sou,
Fito a gente
Que me rodeia e sempre rodeou,
Com um olhar
Que, sem o poder ver,
Sei que é sem ar
De olhar a valer.
E só me não cansa
O que a brisa me traz
De súbita mudança
No que nada me faz."
Fernando Pessoa
Cartas de Amor
Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas.
Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
Como as outras,
Ridículas.
As cartas de amor, se há amor,
Têm de ser
Ridículas.
Mas, afinal,
Só as criaturas que nunca escreveram
Cartas de amor
É que são
Ridículas.
Quem me dera no tempo em que escrevia
Sem dar por isso
Cartas de amor
Ridículas.
A verdade é que hoje
As minhas memórias
Dessas cartas de amor
É que são
Ridículas.
(Todas as palavras esdrúxulas,
Como os sentimentos esdrúxulos,
São naturalmente
Ridículas)."
Álvaro de Campos
sexta-feira, julho 28, 2006
Liberdade
Ai que prazer
Não cumprir um dever,
Ter um livro para ler
E não o fazer!
Ler é maçada,
Estudar é nada.
O sol doira
Sem literatura.
O rio corre, bem ou mal,
Sem edição original.
E a brisa, essa,
De tão naturalmente matinal,
Como tem tempo não tem pressa...
Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.
Quanto é melhor, quando há bruma,
Esperar por D. Sebastião,
Quer venha ou não!
Grande é a poesia, a bondade e as danças...
Mas o melhor do mundo são as crianças,
Flores, música, o luar, e o sol, que peca
Só quando, em vez de criar, seca.
O mais do que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças
Nem consta que tivesse biblioteca...
Fernando Pessoa
quarta-feira, julho 26, 2006
Um olhar consciente sobre a vida
Aprendes que amar não significa apoiar-se, e que companhia nem sempre significa segurança. E começas a aprender que beijos não são contratos e presentes não são promessas.
Começas a aceitar as tuas derrotas com a cabeça erguida e os olhos ao largo, com a graça de um adulto e não com a tristeza de uma criança.
E aprendes a construir todas as tuas estradas no hoje, porque o terreno do amanhã é incerto demais para os planos, e o futuro tem o costume de ser traiçoeiro.
Depois de um tempo, aprendes que o sol queima se lhe ficares exposto por muito tempo. E aprendes que não importa o quanto te importas, algumas pessoas simplesmente não se importam...
E aceita que não importa o quão boa seja uma pessoa, ela vai feri-lo de vez em quando e precisas de perdoá-la por isso. Aprende que falar pode aliviar dores emocionais.
Descobres que se demora anos para se ganhar confiança e apenas segundos para destruí-la, e que podes fazer coisas num instante, das quais te arrependerás para o resto da tua vida.
Aprendes que as verdadeiras amizades continuam a crescer mesmo a longas distâncias. E o que importa não é o que tens na vida, mas quem tens na vida. E que os bons amigos são a família que nos permitiram escolher.
Aprendes que não temos que mudar de amigos se compreendermos que os amigos mudam, percebes que os teus amigos e tu podem fazer qualquer coisa, ou nada, e terem bons momentos juntos.
Descobres que as pessoas com quem mais te importas na vida são levadas muito depressa, por isso, sempre devemos dizer às pessoas que amamos palavras amorosas, pode ser a última vez que as vejamos.
Aprendes que as circunstâncias e os ambientes têm influência sobre nós, mas nós somos responsáveis por nós mesmos. Começas a aprender que não te deves comparar com os outros, mas com o melhor que podes ser.
Descobres que se demora muito tempo para se tornar a pessoa que se quer ser, e que o tempo é curto. Aprendes que não importa onde já chegaste, mas onde queres chegar, mas se não sabes para onde vais, qualquer lugar serve.
Aprendes que, ou controlas os teus actos, ou eles te controlarão, e que ser flexível não significa ser fraco ou não ter personalidade, pois não importa quão delicada e frágil seja uma situação, sempre existem dois lados.
Aprendes que os heróis são pessoas que fizeram o que era necessário fazer, enfrentando as consequências. Aprendes que paciência requer muita prática.
Descobres que algumas vezes a pessoa que esperas que te vire as costas quando cais é uma das poucas que te ajuda a levantar.
Aprendes que a maturidade tem mais a ver com os tipos de experiência que se teve e o que aprendeste com elas do que com quantos aniversários celebraste.
Aprendes que nunca se deve dizer a uma criança que sonhos são enganos, poucas coisas são tão humilhantes e seria uma tragédia se ela acreditasse nisso. Aprendes que quando estás com raiva tens o direito de estar com raiva, mas isso não te dá o direito de seres cruel.
Descobres que só porque alguém não te ama do jeito que queres que ame, não significa que esse alguém não te ama com tudo o que pode, pois existem pessoas que nos amam, mas simplesmente não sabem como demonstrar ou viver isso.
Aprendes que nem sempre é suficiente ser perdoado por alguém, algumas vezes tens que aprender a perdoar-te a ti mesmo. Aprendes que com a mesma severidade com que julgas, um dia serás condenado.
Aprendes que não importa em quantos pedaços o teu coração foi partido, o mundo não pára para que o consertes. Aprendes que o tempo não é algo que possa voltar para trás.
Portanto, planta o teu jardim e decora a tua alma, em vez de esperares que alguém te traga flores.
E aprendes que realmente podes suportar... que realmente és forte, e que podes ir muito mais longe...
Baseado em Shakespeare
terça-feira, julho 25, 2006
Para os amantes de Fernando Pessoa
35 sonnets, by Fernando Pessoa, Lisbon, Ed. Monteiro Co.1918.
Antinous, a poem by Fernando Pessoa, Lisbon, Ed. Monteiro e Co., 1918.
English Poems I-II by Fernando Pessoa, Lisbon, Olisipo, 1921.
English Poems III, Lisbon, Olisipo, 1921. Mensagem, Parceria António Pereira, Lisboa, 1934.
Obras publicadas após a morte do autor:
Obra poética Obras Completas de Fernando Pessoa, col.«Poesia», Lisboa, Ed. Ática.
Poesias de Fernando Pessoa,1ªed. 1942
Poesias de Álvaro de Campos, 1ªed. 1944
Poemas de Alberto Caeiro, 1ªed. 1946
Odes de Ricardo Reis, 1ªed.1946
Mensagem, Fernando Pessoa, 3ªed. 1945
Poemas Dramáticos, de Fernando Pessoa, 1ªed 1952
Poesias Inéditas de Fernando Pessoa (1930-1935), 1ªed. 1955
Poesias Inéditas de Fernando Pessoa (1919-1935), 1ªed. 1956
Quadras ao Gosto Popular de Fernando Pessoa, 1ªed. 1965
Novas Poesias Inéditas, de Fernando Pessoa, 1ªed.1973
Poemas Ingleses publicados por Fernando Pessoa, 1ªed. 1974
Obra Poética de Fernando Pessoa, Lisboa, Publicações Europa-América, 1986
O Guardador de Rebanhos de Alberto Caeiro, edição fac-similada, Lisboa, Ed Dom Quixote, 1986
Primeiro Fausto, São Paulo, Edições Epopeia, 1986.
Obra em Prosa e Epistolografia:
A Nova Poesia Portuguesa, Lisboa, Inquérito, 1944
Cartas de Amor de Fernando Pessoa , Lisboa, Ed. Ática, 1ªed., 1978
Cartas de Fernando Pessoa a Armando Cortes Rodrigues, 3ªed., Lisboa, Livros Horizonte, 1985
Cartas de Fernando Pessoa a João Gaspar Simões, 2ªed., Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1982
Da República, Lisboa, Ed. Ática 1ªed. 1979
Fernando Pessoa - O Comércio e a Publicidade, Lisboa, Ed. Cimevoz/Lusomédia, 1986.
Livro do desassossego por Bernardo Soares, Lisboa, Ed. Ática,1982, 2vol.
Obra em Prosa, Rio de Janeiro, Nova Aguilar, 1974.
Obras em Prosa de Fernando Pessoa, Lisboa, publicações europa-América, 1987.
Escritos Íntimos, Cartas e Páginas Auto-Biográficas;
Textos de Intervenção Social e Cultural - A ficção dos Heterónimos;
Livro do Desassossego por Bernardo Soares, I parte;
Livro do Desassossego por Bernardo Soares, II parte;
Ficção e Teatro - O Banqueiro Anarquista, Novelas Policiárias, O Marinheiro e Outros;
A Procura da Verdade Oculta - Textos Filosóficos e Esotéricos;
Portugal, Sebastianismo e Qinto Império;
Páginas de Pensamento Político-I (1910-1919);
Páginas de Pensamento Político-II (1925-1935)
Páginas de Doutrina Estética, Lisboa, Inquérito, 1946
Páginas de Estética e de Teoria e Crítica Literárias, Lisboa, Ed. Ática 1ªed. S/d
Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação, Lisboa, Ed. Ática, 1ªed.1966
Sobre Portugal, Lisboa, Ed. Ática ,1ªed.1979
Textos Filosóficos, Lisboa, Ed. Ática, 1ªed.1968, 2vol
Textos para Dirigentes de Empresas, Lisboa, Ed. Cinevoz, 1969
Textos de Crítica e de Intervenção, Lisboa, Ed. Ática, 1ªed. 1980
Ultimatum e Páginas de Sociologia Política, Lisboa, Ed. Ática,1ªed.1980.
Obra em Prosa e Epsitolografia A Nova Poesia Portuguesa, Lisboa, Inquérito, 1944
Cartas de Amor de Fernando Pessoa , Lisboa, Ed. Ática, 1ªed., 1978
Cartas de Fernando Pessoa a Armando Cortes Rodrigues, 3ªed., Lisboa, Livros Horizonte, 1985
Cartas de Fernando Pessoa a João Gaspar Simões, 2ªed., Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1982
Da República, Lisboa, Ed. Ática 1ªed.1979
Fernando Pessoa - O Comércio e a Publicidade, Lisboa, Ed. Cimevoz/Lusomédia, 1986.
Livro do desassossego por Bernardo Soares, Lisboa, Ed. Ática,1982, 2vol.
Obra em Prosa, Rio de Janeiro, Nova Aguilar, 1974.
Obras em Prosa de Fernando Pessoa, Lisboa, publicações europa-América, 1987.
Escritos Íntimos, Cartas e Páginas Auto-Biográficas;
Textos de Intervenção Social e Cultural - A ficção dos Heterónimos;
Livro do Desassossego por Bernardo Soares, I parte;
Livro do Desassossego por Bernardo Soares, II parte;
Ficção e Teatro - O Banqueiro Anarquista, Novelas Policiárias, O Marinheiro e Outros;
A Procura da Verdade Oculta - Textos Filosóficos e Esotéricos;
Portugal, Sebastianismo e Quinto Império;
Páginas de Pensamento Político-I (1910-1919);
Páginas de Pensamento Político-II (1925-1935)
Páginas de Doutrina Estética, Lisboa, Inquérito, 1946 Páginas de Estética e de Teoria e Crítica Literárias, Lisboa, Ed. Ática 1ªed. S/d
Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação, Lisboa, Ed. Ática, 1ªed.1966
Sobre Portugal, Lisboa, Ed. Ática ,1ªed.1979
Textos Filosóficos, Lisboa, Ed. Ática, 1ªed.1968, 2vol
Textos para Dirigentes de Empresas, Lisboa, Ed. Cinevoz, 1969
Textos de Crítica e de Intervenção, Lisboa, Ed. Ática, 1ªed. 1980
Ultimatum e Páginas de Sociologia Política, Lisboa, Ed. Ática,1ªed.1980.
Sobre o Poeta:
ALCÂNTARA, Maria Beatriz Rosário de, Fernando Pessoa e o Movimento Futurista de Álvaro de Campos, Brasília, Ed. Fundação Waldemar de Alcântara, 1986
ALMEIDA, Luís Pedro Moitinho de, Fernando Pessoa e a Magia, Lisboa, 1959
ALMEIDA, Luís Pedro Moitinho de, Fernando Pessoa no Cinquentenário da Sua Morte, Coimbra, Coimbra Editora, 1985.
ANDRADE, João Pedro de, A Poesia da Moderníssima Geração, Porto, Livraria Latina, 1943.
ANTUNES, Manuel, Três Poetas do Sagrado: Pascoaes, Pessoa, Régio, Lisboa, 1957.
BELKIOR, Silva, Fernando Pessoa- Ricardo Reis, Ed. Imprensa Nacional Casa da Moeda, Lisboa, 1983
BERARDINELLI, Cleonice, Poesia e Poética de Fernando Pessoa, Rio de Janeiro, 1958.
BLANCO, José, Fernando Pessoa - Esboço de Uma Bibliografia, Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1983
CARNEIRO, Mário de Sá-, Cartas a Fernando Pessoa, Ed. Ática, Lisboa, 1958.
CENTENO, Yvette K., 5 Aproximações, Lisboa, Ática, 1976.
CENTENO, Y.K.; Reckert, S., Fernando Pessoa - Tempo, Solidão, Hermetismo, Lisboa, Livr.Moraes, 1978.
CENTENO, Yvette, Fernando Pessoa e a Filosofia Hermética, Lisboa, Editorial Presença, 1985
COELHO, António de Pina, Os Fundamentos Filosóficos da Obra de Fernando Pessoa, Lisboa, Editorial Verbo, 1971, 2 vol.
COELHO, Jacinto do Prado, Diversidade e Unidade em Fernando Pessoa, Lisboa, Editorial Verbo, 1963.
COELHO, Jacinto do Prado, Camões e Pessoa, Poetas da Utopia, Lisboa, Publicações Europa-América, 1984.
COSTA, Eduardo Freitas da, Fernando Pessoa- Notas a uma biografia Romanceada, Lisboa, Guimarães Editores,1951.
COSTA, Dalila Pereira da, A Nova Atlântica, Porto, Lello, 1977.
COSTA, Dalila Pereira da, O Esoterismo de Fernando Pessoa, Porto, Lello & Irmãos Editores, 1971.
DUARTE, José Afrânio Moreira, Fernando Pessoa e os Caminhos da Solidão, Belo Horizonte, Imprensa Oficial, 1968.
EDINGER, Catarina T.F., A Metáfora e o Fenómeno Amorosa nos Poemas Ingleses de Fernando Pessoa, Porto, Brasília editora, 1982.
FRANÇA, Isabel Murteira, Fernando Pessoa na Intimidade, Lisboa- Rio de Janeiro, Dom Quixote - Livraria Paisagem, 1987.
FREITAS, Eduardo da Costa, Fernando Pessoa- Notas a Uma Crítica Romanceada, Lisboa, Guimarães, 1951.
GUSMÃO, Manuel, O Poema Impossível - o Fausto de Pessoa, Lisboa, Ed. Caminho, 1986.
JAKOBSON, Roman; PICCHIO, Luciana, Os Oximoros Dialécticos de Fernando Pessoa, Edições 70, 1976.
JENNINGS, H.D., Os Dois Exílios, Porto, Fundação Engenheiro António de Almeida, Centro de Estudos Pessoanos, 1984.
KUJAWSKY, Gilberto de Mello, Fernando Pessoa, o Outro, S.Paulo, Centro Estadual de Cultura, 2ªed. 1973.
LENCASTRE, Maria José de, Fernando Pessoa- uma Fotobiografia, Lisboa, Ed. Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1981.
LIND, Georg Rudolf, Teoria Poética de Fernando Pessoa, Porto, Inova, 1970.
LOPES, Teresa Rita, Pessoa por conhecer, Lisboa, Editoral Estampa, 1990, 2vol.
LOURENÇO, Eduardo, Fernando Pessoa Revisitado, Porto, Ed. Inova, 1973.
LOURENÇO, Eduardo, Fernando, Rei da Nossa Baviera, Lisboa, Imprensa Nacional- Casa da Moeda, 1986.
MOISÉS, Carlos Filipe, O Poema e as Máscaras, Coimbra, Livraria Almedina, 1981.
MONTEIRO, Adolfo Casais, Estudos sobre a Poesia de Fernando Pessoa, Rio de Janeiro, Ed. Agir, 1958.
MONTEIRO, Adolfo Casais, Fernando Pessoa e a Crítica, Lisboa, Inquérito, 1952.
MONTEIRO, Adolfo Casais, Estudos sobre Fernando Pessoa, Rio de Janeiro, Agir,, 1958; 2ªed., Lisboa, INCM, 1985.
NEMÉSIO, Jorge, A Obra Poética de Fernando Pessoa, Salvador, Bahia, Livr. Progresso Editora, 1958.
PADRÃO, Maria da Glória, A Metáfora em Fernando Pessoa, Porto, Ed. Inova, 1973.
PERRONE-MOISÉS, Leyla, Fernando Pessoa - Aquém do Eu, Além do Outro, São Paulo, Martins Fontes, 1982.
QUADROS, António, Fernando Pessoa, Lisboa, Ed. Arcádia, 1960, 2ªed. 1984.
QUADROS, António, Fernando Pessoa - Vida, Personalidade e Génio, Lisboa, Publicações Dom Quixote, 2ªed., 1984.
ROSA, Pradelino, Uma Interpretação de Fernando Pessoa, Lisboa, Guimarães Editores, 1971.
SACRAMENTO, Mário, Fernando Pessoa, Poeta de Hora Absurda, Lisboa, ed. Contraponto, 1958; 2ªed., Porto, Ed. Inova, 1970.
SEABRA, José Augusto, O Heterotexto Pessoano, Lisboa,Dinalivro, 1985.
SEABRA, José Augusto, Fernando Pessoa ou o Poetodrama, Instituto Nacional-Casa da Moeda, 1988.
SENA, Jorge de, O Poeta é um fingidor, Lisboa, Ática, 1961.
SIMÕES, João Gaspar, Vida e Obra de Fernando Pessoa, Lisboa, Livraria Bertrand, 1950; 2ªed.,revista s/d.
SILVA, Agostinho da, Um Fernando Pessoa, Lisboa, Guimarães Editores, 1988.
SIMÕES, João Gaspar, Vida e Obra de Fernando Pessoa - História de Uma Geração,1ºed., Lisboa, Bertrand, 1951, 2vol.; 4ªed., 1980.
SIMÕES, João Gaspar, Fernando Pessoa- breve história da sua vida e da sua obra, Lisboa, Difel,1983.
SOUSA, Maria Leonor Machado de, Fernando Pessoa e a Literatura de Ficção, Lisboa, Ed. Novaera, 1976.
VERNEX, Jorge, A Maçonaria e Fernando Pessoa, Porto, Ed. Além, 1953.
segunda-feira, julho 24, 2006
Se, depois de eu morrer...
Se, depois de eu morrer, quiserem escrever a minha biografia,
Não há nada mais simples.
Tem só duas datas --- a da minha nascença e a da minha morte.
Entre uma e outra todos os dias são meus.
Sou fácil de definir.
Vi como um danado.
Amei as coisas sem setimentalidade nenhuma.
Nunca tive um desejo que não pudesse realizar, porque nunca ceguei.
Mesmo ouvir nunca foi para mim senão um acompanhamento de ver.
Compreendi que as coisas são reais e todas diferentes umas das outras;
Compreendi isto com os olhos, nunca com o pensamento.
Compreender isto com o pensamento seria achá-las todas iguais.Um dia deu-me o sono como a qualquer criança.
Fechei os olhos e dormi.
Além disso fui o único poeta da Natureza.
Alberto Caeiro
domingo, julho 23, 2006
Poema em linha recta
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cómico criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado,
Para fora da possiblidade do soco;
Eu que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu que verifico que não tenho par nisto neste mundo.
Toda a gente que eu conheço e que fala comigo,
Nunca teve um acto ridículo, nunca sofreu um enxovalho,
Nunca foi senão - princípe - todos eles princípes - na vida...
Quem me dera ouvir de alguém a voz humana,
Quem confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó princípes, meus irmãos,
Arre, estou farto de semideuses!
Onde há gente no mundo?
Então só eu que é vil e erróneo nesta terra?
Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que tenho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza."
Álvaro de Campos
Não, não é cansaço...
É uma quantidade de desilusão
Que se me entranha na espécie de pensar.
É um domingo às avessas
Do sentimento,
Um feriado passado no abismo...
Não, cansaço não é...
É eu estar existindo
E também o mundo,
Com tudo aquilo que contém,
Como tudo aquilo que nele se desdobra
E afinal é a mesma coisa variada em cópias iguais."
Álvaro de Campos
sexta-feira, julho 21, 2006
O que há em mim é sobretudo cansaço
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.
A subtileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto alguém.
Essas coisas todas -
Essas e o que faz falta nelas eternamente -;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.
Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada -
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque eu quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser...
E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço.
Íssimo, íssimo. íssimo,
Cansaço..."
Álvaro de Campos
quinta-feira, julho 20, 2006
quarta-feira, julho 19, 2006
As minhas ansiedades
Por uma escada abaixo.
Os meus desejos balouçam-se
Em meio de um jardim vertical.
Na Múmia a posição é absolutamente exacta.
Música longínqua,
Música excessivamente longínqua,
Para que a Vida passe
E colher esqueça aos gestos."
Fernando Pessoa
terça-feira, julho 18, 2006
No deserto da multidão
Fazemos planos como se vivêssemos para sempre. Olho-te nos olhos e vejo montes de sonhos a realizar, esperanças e ambições. Queria tanto poder voltar a sonhar com fé, crente de que os meus sonhos seriam um realidade mais tarde ou mais cedo. Tive tantos projectos, realizei muito planos, alguns até nem cabiam nos meus sonhos. De tudo o que sonhei só não atingi a realidade de um sonho. Talvez nunca consiga. Talvez não me atreva a contar a ninguém qual é o sonho que me falta realizar. Talvez seja um disparate. Não me queria ir embora sem o realizar. Se um dia viver esse sonho, posso ir-me embora, feliz, certa de que cumpri a minha missão, estabelecida por mim própria. Cumpriria o destino que tracei em sonhos, ideias, acções, sentimentos e emoções.
Há um lado da vida que não desejo nem à pessoa mais maquiavélica. A escuridão, andar na vida com as luzes apagadas, as nuvens carregadas com chuvas fortes e trovoadas. Sentir a fragilidade do ser humano perante as catástrofes, adversidades, obstáculos inevitáveis. Sentir que não podemos controlar tudo, o nosso corpo, a nossa mente, o nosso coração. Somos seres fracos. Mostramos força, dizemo-nos capazes do impossível, até podemos voar e ir à lua, mas sucumbimos perante coisas simples, aparentemente tão insignificantes que quando elas aparecem não estamos preparados, não acreditamos que existem mesmo, que nos podem atingir. Fechamos os olhos às misérias. Cremos que são uma minoria, que devem ser ficção, coisas da televisão e do cinema. Quando elas aparecem demoramos a digeri-las porque não conseguimos aceitar que estejam mesmo debaixo dos nossos olhos, às vezes dentro de nós.
É tão complicado explicar o inexplicável. Que palavras podem descrever a nossa fragilidade? Como explicar que levantar todos os dias da cama, abrir a janela, ver a luz do dia, ouvir o barulho dos carros e das pessoas a falar, tomar banho e escolher uma roupa, saborear o pequeno-almoço e ir trabalhar pode ser uma rotina, mas é a melhor coisa que temos. Só quando nos vemos impossibilitados de fazer essa rotina é que percebemos o valor que ela tem. Não é um valor que se explica mas se sente. E só o podemos sentir com intensidade se algum dia algo nos impedir de o realizar.
Podem-nos falar de milhões de pessoas que dariam tudo para terem os nossos problemas. Porque isso seria sinal de que não teriam outros mais graves.
Realizar sonhos quando se tem todas as condições não é um feito mas uma obrigação natural. Mas ultrapassar obstáculos em determinadas condições não é realizar um sonho, é um pequeno milagre todos os dias. A própria vida é um milagre.
A ti, meu anjo, só desejo que continues nas nuvens, num mundo de muita luz, onde não entre a escuridão, onde as misérias, as fragilidades, os obstáculos inultrapassáveis sejam coisas irreais que não cabem na tua realidade. Não quero que conheças o lado negro da vida. Não quero que a tua felicidade sofra qualquer abalo. Só quero que sejas feliz…
Sandra Bastos
domingo, julho 16, 2006
Príncipe do nada
Príncipe do nada. É o que és, como muitos homens. Mas há uma grande parte que nem chega a ser príncipe. São “sapos”, pequenos monstros… às vezes disfarçados em corpos perfeitos. Serás um desses? Acredito que não. Até que ponto? Até provares o contrário. Cinderelas… tantas! Obcecadas por encontrar o príncipe que as salve da sua vida miserável. Tão parvas. Eu sei, também já fui assim. Talvez por isso procure quem não me queira salvar, quem não me queira calçar um sapatinho que me transforme numa bela princesa e depois “foram felizes para sempre”. A bruxa má estava dentro de mim mesma. Eu a minha maior inimiga que me estragava a vida, que mergulhava numa miséria profunda. E depois teria de aparecer o príncipe encantado que no primeiro olhar se apaixonaria para sempre… Ridículo!
No meu conto-de-fadas, eu sou a conselheira da princesa, da rainha e de outras inúteis. Cumprido o meu horário de trabalho sairia para a borga, onde me divertia durante a madrugada, livre como um passarinho, feliz como a criança mais amada. Nos meus dias de folga correria o mundo, novos conhecimentos e descobertas, na mais autêntica farra da vida.
De regresso ao trabalho, no palácio das ilusões, lá teria de me cruzar com o parvalhão do príncipe e outros tantos pretendentes a títulos da nobreza e ouvir os seus queixumes, aturar as crises nervosas das damas, que não sabem o que vestir, como atrair os seus amados, como manter o final feliz para sempre. Vão-se foder todos!Qualquer dia, se não me derem um aumento, meto atestado médico por stress no local de trabalho.
Diz-me a verdade: és um príncipe encantado? Que tipo de príncipe és? És o que elas querem ou apenas o que realmente és? Príncipe de porcaria nenhuma. Príncipe do nada. Ou nada de príncipe. Se fores eleito rei de qualquer esterco, podes ter a certeza de que peço o exílio do teu reino e ainda fico a preparar uma revolução que devolva a anarquia!
Falando agora sem metáforas para não baralhar o teu português. Se te transformas no protótipo de príncipe encantado serei a primeira a rejeitar-te, a ignorar-te, a condenar tão humilhante condição. Mas o que é um príncipe encantado? Aquele que casa com a Cinderela. E?
Um exemplo: ela infeliz no seu emprego (seja ele qual for), passa os minutos a contar o tempo que ainda lhe resta para acabar o trabalho que detesta; vai para a sua casinha e perde-se com as lamechices das telenovelas portuguesas e das revistas cor-de-rosa; sonha com o príncipe que a vai salvar da sua vida miserável. Para isso produz-se a fim de o conquistar. Normalmente é o primeiro que lhe aparece, que fixa o seu decote e a convida para sair. Ele é o príncipe encantado. Minimamente atraente, sabe seduzir, mesmo que inconscientemente, promete-lhe mundos e fundos, faz-lhe todas as vontades até ao casamento. Depois, principalmente quando surgem os descendentes, a coisa perde o interesse, porque não dá para manter a máscara para sempre. Esta acaba por cair muito mais cedo do que imaginam.
Claro que podia aprofundar muito mais o exemplo, mas acho que já percebeste o que quero dizer. Mesmo assim podes me perguntar o que quiseres. Como já disse, e volto a repetir até acreditares que é mesmo para ti que falo, que terás todas as respostas, as minhas, mas talvez não as que procuras.
Príncipe do nada… Sem príncipes. Nem princesas. Apenas nós próprios. Sem máscaras. Despidos de hipocrisias, preconceitos ou complexos. Apenas a essência. O âmago do nosso fundo.
Fica bem. Em ti, sobre ti mesmo e acompanhado por ti próprio. Um dia te direi porquê, se entretanto não te transformares num príncipe e arranjares uma princesa igualmente inútil. Desculpa, eu sei que serve para ter filhos. E cuidar da casa. Além disso… mais alguma coisa?
Sandra Bastos
sábado, julho 15, 2006
Tabacaria
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte disso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
(…)
Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade,
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.
Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.
Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei-de pensar?
Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso ser tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Génio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho génios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim."
(…)
Álvaro de Campos
quarta-feira, julho 12, 2006
Ainda aí estás? O teu rosto expressivo...
Mas quando não estou contigo, começo a sentir um aperto, uma saudade, uma vontade incontrolável de estar contigo. Não te vás embora já! Eu prometo não te chatear. Vou-me portar bem. Não te vou dar sermões. Não te vou picar. Quero apenas ouvir-te. Estar horas mergulhada na singularidade do teu ser, sempre tão curioso. Quero conhecer-te, como se me lembrasse de não te conhecer. Mas era diferente. Quero entrar no teu mundo, perceber como funcionas, os teus neurónios em movimento, o coração a palpitar, o carinho das tuas mãos, o calor do teu corpo…
Sei lá, as saudades a apertarem e a iminência de te perder para sempre. Tu que não te queres dar a ninguém. Tens razão, o mundo dos afectos é um vulcão em actividade, a ferver, a incendiar e até a destruir o que o rodeia. É, amores verdadeiros ou sérios podem ser catástrofes, prisões, desilusões, tanta porcaria destrutiva, poluição que até cheira mal. Mas há também o outro lado, o crescimento completo, a paixão, o auge da felicidade, que nunca se alcança apenas com o sucesso. Há um mundo fantástico de descoberta, de entrega, cumplicidade, onde não se sabe quando começa e acaba o nosso eu.
Mas continuas aí? Com esse sorriso maroto, ou preferes que o apelide de macho? Não me convences com essa treta da virilidade. Não precisas disso para nada. Não precisas de te mostrar para demonstrares que és um grande homem, em todos os aspectos. Se te concentrares no interior do teu ser verás que não tens necessidade de provar a ninguém quem és, como és e do que és capaz. Confia em ti, como sempre e como em todas as coisas.
E continuas cheio de dúvidas. Serei eu? Pergunta-me o que quiseres. Terás todas as respostas, as minhas, mas talvez não as que procuras.
Sandra Bastos
terça-feira, julho 11, 2006
A emoção de viver
Corre. Não tens paredes que te impedem de correr. Não tens grades que te travam o caminho. Tantas coisas bonitas e tu nem tinhas reparado que elas existiam. Porque não as vias. Nem nos teus sonhos. Não pares. Continua a correr. Sorri para vida. Dá gargalhadas. É tão bom viver.
As pessoas que passam… olha só para aquelas que sorriem e te olham nos olhos. Só essas valem a pena. As árvores, os campos, os passeios, os edifícios, o espaço livre, as crianças sempre inocentes, as flores a desabrocharem, as nuvens branquinhas, o céu, a lua tão romântica, as estrelas…
E agora repara, sim, entra ali, ouve as pessoas a falar alto, a rir de alegria, algumas com copos na mão, felizes… Sim, também podes lá estar. Sim, tu mesma. Nada te impede de aí estares.
Olha ali também, artistas no palco. Uns falam, outros gritam, outros dançam, outros fazem acrobacias, outros tocam, outros cantam, outros que não te deixam indiferente. Também podes ver. Ouvir. Cheirar. Apalpar. Sentir. E falar. Porque eles ouvem-te. Com atenção. E gostam de ti. Exactamente como és. Nem mais nem menos. Nem mais gorda nem mais magra. Nem mais alta nem mais baixa. Assim mesmo. Sim, lá na prisão era diferente. Mas isso foi noutra vida. Nunca nesta. Podes também parar. Relaxar. Sem nada fazer. Saborear o descanso. Respirar, caminhar, mexer também cansa. Amanhã é outro dia.
Compreendo que estejas emocionada. Ainda não viste nada. Isto é só o princípio. Nunca mais serás a mesma. Só deste os primeiros passos. Consegues ver lá ao fundo? Não! Pois, nem nunca verás. Porque este caminho, ao contrário dos outros, não tem fim. Terás sempre coisas a descobrir. Conhecimentos a adquirir. Pessoas a amar. Por muito longe que chegues estarás sempre longe da perfeição mas cada mais distante da imperfeição. E o que importa não é atingir o impossível mas chegar lá o mais perto possível."
Eva Monteiro, em "Memórias"
A recuperação da queda
Andei perto de descobrir o meu caminho, estava perto, sentia que podia ir por ali mas tinha medo, medo de nada e de tudo. Quando me mostraram o caminho, fiquei emocionada. Ouvi uma voz dentro de mim:
- É mesmo por ali que tens de ir. Chegou a hora de optares e não podes perder mais tempo. Larga o que te impede de seguir em frente, porque não é aí que tens de ficar, não é essa vida que tens de viver. Faz as malas das recordações. Leva só o essencial. O resto tem de ficar para trás, não pode caber na tua nova vida. Tiveste de passar por diversas provas, por momentos terríveis que te ajudaram a crescer e a ganhar a confiança necessária. Tudo o que passaste era importante para compreenderes o mundo, o valor da vida, o teu próprio destino. Agora estás pronta! Agora é o momento! Vai… mas não voltes para trás.
Só agora sou capaz de escolher o melhor, só agora tenho condições para não cair e desistir. Noutra altura tudo se perderia não teria a coragem para continuar num caminho tão exigente. Só Deus sabe. Porque Deus é a sabedoria e o amor. Confiou em mim. Sabia que para chegar aonde quero teria de passar por dolorosos obstáculos, quase impossíveis. Mesmo quando estava do fundo do poço, tão fundo que nem conseguia ver a luz ao fundo, deste-me a tua mão e disseste-me que ias estar sempre comigo, mesmo que o fim fosse ali mesmo. Acreditei em ti. Sabia que não me ias abandonar mesmo quando me senti sozinha e sem forças. Mesmo quando achei que eras a única ilusão em que podia acreditar, mesmo quando as evidências mostravam que estavas longe. Mas a tua mão sempre ali, quase sem força, mas sempre ali…
Sabes que perdi tudo, o meu amor-próprio, a minha dignidade… fui um farrapo de limpar o chão. Às vezes nem para isso servia. Quem me tornou assim tão miserável? Não quero saber.
Tens que impor respeito e ver por onde caminhas, com quem e, principalmente, saber quem é capaz de te empurrar para reagires antes da queda. E se caíres, levanta-te logo e afasta o brincalhão, manda-o às favas. Mas não permitas que brinquem contigo aos empurrões. Isso é jogo sujo. Quem faz batota tem de ser expulso. Não entra mais no relvado. No palco da tua vida não podem haver indisciplinados nem desordeiros. Ninguém pode agredir o adversário gratuitamente.
Um passo de cada vez. Até que consegui sair do poço. Vejo a claridade da luz que ilumina da linda paisagem que me rodeia. O sol brilha, o céu está azul, a temperatura agradável… respiro o ar puro e que bom é ser livre. Que bom que é poder caminhar, dar pulos de alegria, sorrir e abraçar os amigos, sentir o calor do amor, a força da vida… o que eu perdi nestes anos todos. Uma vida mergulhada na escuridão, sempre na eminência do abismo, presa à infelicidade.
Não há palavras, não há gestos, nem o meu sentimento de gratidão chega para te valorizar. Não precisas de mim para seres quem és, mas eu sem ti nem existia, e se existisse não sobrevivia. É o melhor que te posso dizer.
Só sei que sem ti não estava aqui, não conseguiria sentir esta emoção por existir não só de corpo, mas sobretudo de alma. A única coisa que posso fazer em tua homenagem é agarrar esta oportunidade e não voltar a dar-te tanto trabalho. Meu Deus."
Eva Monteiro, em "Memórias"
segunda-feira, julho 10, 2006
Tu és...
Sorris confiante, os passos que dás são seguros, sabes muito bem o terreno que pisas. Transportas na tua juventude todos os sonhos do mundo, deixas as palavras fluírem ao ritmo do teu coração. Mas a inteligência, o talento, o trabalho são imprescindíveis. Até os teus pensamentos estão divididos em compassos. Música na medida certa. O excesso pode perturbar o prazer da contemplação. Pensar demasiado em determinadas questões seria tempo desperdiçado, perturbador demais, talvez o fim de muitas certezas. E isso poderia trazer a palavra proibida: insegurança!
Por que te admiro tanto? Personalidade. Sim, tens personalidade. Podes errar, podes magoar os outros, podes irritar-me, podes agir com imaturidade, mas nunca por falta de personalidade. Isso é o mais importante. O teu coração existe apenas para os momentos certos. O cérebro para todos.
Mendelssohn. Conheces o famoso solo para trompas (Nocturno) do Sonho de Uma Noite de Verão? Certamente. Expressivo… tu és…
Estar contigo é o meu sonho nesta noite de Verão. Chamo por ti, apesar de não me ouvires. A tua música bem lá ao longe… Que instrumento faz de ti um artista? Será digno de ti? Não sei. Claro, o nome do instrumento… Não sei. Sabes? O quê? Curioso, eu também. Não. Sim. Fica comigo. Transforma esta noite num sonho de Verão. Ou a noite de verão num sonho. Ou o sonho na noite todo o Verão. Apenas o sonho. Quando quiseres… entra o resto da orquestra… na noite… no Verão… Apenas este andamento. Não gosto da marcha da obra. Sim, estou a falar de Mendelssohn. Não parecia? Pois, onde isso vai.
Vais sim ser feliz! Sempre. Tem de ser uma certeza. Onde quer que estejas e com quem e de que forma. Enfim. Tretas. Ainda aí estás? És muito crente. E com esse olhar fixo em mim! Não admira que fiques convencido. Desculpa, quis dizer apenas confiante. Está gira a conversa. Às 3 da manhã. Falava de ti a noite toda. Ou contigo. Como preferires. Perdoas-me se continuar amanhã? Não, hoje mesmo depois de dormir, depois de fazer o meu exame e no intervalo de estudo para um outro exame. Perco-me contigo, a contemplar-te, a ouvir-te, a falar contigo, a escrever sobre ti… Sabias que és uma perdição?
Mas não me mistures com as outras. Não tem nada a ver. Não interessa. Logo volto a escrever. Quem sabe se não te encontro, perdido entre a multidão da paisagem, mesmo na confusão sabes para onde vais e nem por um segundo hesitas na direcção a tomar. Só quero que os teus passos te levem ao possível do impossível. Mesmo que eu não te possa ovacionar ao vivo. No meu cantinho, estarei na primeira fila a aplaudir-te, no grande auditório do mundo, onde tu estás no palco da tua vida como actor principal.
Sim, para a frente mas sempre com os pés no chão, não vá haver o azar das nuvens estarem furadas…e o anjo da guarda estar de férias!
Sandra Bastos
domingo, julho 09, 2006
Poesia
Pessoa
sexta-feira, julho 07, 2006
O Guardador de Rebanhos
Mas é como se os guardasse.
Minha alma é como um pastor,
Conhece o vento e o sol
E anda pela mão das Estações
A seguir e a olhar.
(…)
Mas a minha tristeza é sossego
Porque é natural e justa
E é o que deve estar na alma
Quando já pensa que existe
E as mãos colhem flores sem ela dar por isso.
Como um ruído de chocalhos
Para além da curva da estrada,
Os meus pensamentos são contentes.
Só tenho pena de saber que eles são contentes,
Porque, se o não soubesse,
Em vez de serem contentes e tristes,
Seriam alegres e contentes.
Pensar incomoda como andar à chuva
Quando o vento cresce e parece que chove mais.
Não tenho ambições nem desejos.
Ser poeta não é uma ambição minha
É a minha maneira de estar sozinho.
(…)
Quando me sento a escrever versos
Ou, passando pelos caminhos ou pelos atalhos,
Escrevo versos num papel que está no meu pensamento,
Sinto um cajado nas mãos
E vejo um recorte em mim
No cimo de um outeiro,
Olhando para o meu rebanho e vendo as minhas ideias,
Ou olhando para as minhas ideias e vendo o meu rebanho,
E sorrindo vagamente como quem não compreende o que se diz
E quer fingir que compreende."
(…)
Alberto Caeiro
O Pastor Amoroso
Já não sei andar só pelos caminhos,
Porque já não posso andar só.
Um pensamento visível faz-me andar mais depressa
E ver menos, e ao mesmo tempo gostar bem de ir vendo tudo.
Mesmo a ausência dela é uma coisa que está comigo.
E eu gosto tanto dela que não sei como a desejar.
Se não a vejo, imagino-a e sou forte como as árvores altas.
Mas se a vejo tremo, não sei o que é feito do que sinto na ausência dela.
Todo eu sou qualquer força que me abandona.
Toda a realidade olha para mim como um girassol com a cara dela no meio."
Alberto Caeiro
Não é necessário formar professores de português!
Deixo à reflexão um pequeno texto que por casualidade me veio ter às mãos e acordou em mim a mágoa de me sentir inútil... mas quem corre por gosto não cansa... Contudo, quem espera por vezes desespera
"Tome-se uma mulher (ou um homem).
De preferência que saiba ler um pouco.
Sendo humano, também dá jeito.
Fora de época, use-se o robot.
Deve chegar para se ser professora de Língua Portuguesa." (Rafael Tormenta)
Esperança
quinta-feira, julho 06, 2006
O Amor
O sexo é só um acidente.
Pode ser igual
Ou diferente.
O homem não é um animal:
É uma carne inteligente,
Embora às vezes doente."
Fernando Pessoa
Autopsicografia
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele,
Mas só a que eles não têm.
E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama o coração."
Fernando Pessoa
domingo, julho 02, 2006
Elinor Dashwood

"Elinor Dashwood, uma das heroínas de Sensibilidade e Bom Senso, está apaixonada, quase desde o início do livro, por Edward Ferrars, o irmão da sua horrível cunhada, Fanny. Edward é um jovem calado, tímido, discreto e inexperiente, que anos antes fora levado a ficar secretamente noivo de Lucy Steele, a sobrinha do seu tutor num colégio particular de Plymouth. Edward sabe há algum tempo que não está apaixonado por Lucy, mas por uma questão de honra sente-se obrigado a manter o noivado, apesar de se ter apaixonado por Elinor, que, a todos os níveis, é muito mais indicada para ele. Quando Elinor conhece Lucy, percebe de imediato que esta não está minimamente apaixonada por Edward, mas compreende que a honra de Edward o levará a cumprir a sua promessa de casamento; é incapaz de cometer a afronta de terminar o noivado e é também demasiado nobre para perceber que Lucy nada sente por ele. O único desejo de Lucy é casar com um homem – qualquer homem. Que ela julgue ter um rendimento suficiente para lhe permitir viver ao estilo a que ambiciona habituar-se.
Por conseguinte, tudo o que Elinor pode fazer é sentar-se e esperar, sem qualquer esperança para o futuro. Vive atormentada por Lucy, que pressente em Elinor uma rival e tudo faz para destruir as esperanças desta repetindo constantemente que ela, Lucy, está secretamente comprometida com Edward. Lucy, em boa verdade, está sempre com esquemas; torna-se amiga de Fanny e depois revela-lhe o noivado. Fanny reage muito mal e corre a contar à mãe. (…) [que o deserda a favor do irmão Robert]
[Lucy] foge agora com o abastado Robert, em vez de continuar presa ao pobretanas do Edward. Edward, um homem de Igreja, recebe uma casa paroquial do coronel Brandon, que acabará por casar com Marianne, a irmã de Elinor; e assim que Edward se vê livre de Lucy, e com um rendimento, embora não muito grande, que lhe permite sustentar uma mulher, corre a pedir a mão de Elinor em casamento, e pouco depois eles tornam-se «um dos casais mais felizes do mundo»"
Lauren Henderson, em "Amor e Sedução segundo Jane Austen"

